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"A literatura insinua e coloca questões muito mais do que as responde ou resolve."

-------------------Milton Hatoum, escritor brasileiro



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sexta-feira, 9 de julho de 2010

CHEIRO DE CEBOLA (II)

D’Arco desceu do carro. Ele segurava um cassetete. A casa diante dele era pequena e muito velha. Não havia portão ou muro e a fachada debruçava-se sobre a calçada da rua. Seu olhar perscrutador confirmou o endereço e ele apertou a campainha desbotada pelas intempéries. Não demorou e a porta de pintura desbotada foi entreaberta. O rosto carrancudo de um homem apareceu.

- O que quer?

- Sou o detetive Jules D’Arco, da Polícia de Poços de Caldas... procuro por uma jovem chamada Carolina... ela mora aqui?

- Polícia?! O que quer com ela? – indagou o homem demonstrando seu desagrado.

- O senhor é o pai de Carolina?

- O que ela fez? Tem intimação?

- Eu preciso falar com ela.

Súbito, o homem fechou bruscamente a porta. O som do choque das madeiras assustou-o. A porta teve seu curso interrompido quando se chocou com o cassetete colocado pelo detetive, um segundo antes do pai de Carolina fechá-la. Ele ficou atônito por um instante, tempo suficiente para que o detetive empurrasse a porta para trás e invadisse a sala. O pai de Carolina caiu no chão e encolheu-se, como um animal acuado.

- Não, não me machuque, por favor!

Empunhando o cassetete e demonstrando disposição para luta, o detetive se aproximou do homem. Naquele momento foi que percebeu que ele era um velho.

- Vou machucá-lo – disse D’Arco mentindo. – A não ser que seja preciso... quem é você?

- Sou, sou o pai de Carolina, mas não me machuque...

D’Arco estendeu-lhe a mão, ajudando-o a levantar-se. Colocou-o sentado numa poltrona de tecido rasgado e seboso.

- Onde está Carolina!? Diga logo!

- Ela, ela está no quarto, mas não machuque a minha filha... ela, ela é tudo que eu tenho...

O detetive volveu a cabeça, olhando para o corredor.

- Qual deles?!

- A porta da esquerda...

D’Arco executou um passo e o velho repetiu:

- Por favor, não faça mal a minha filha... eu só tenho ela.

O detetive fitou-o nos olhos.

- Não tenha medo. Não sou o tipo de pessoa que o senhor está pensando.

D’Arco caminhou depressa pelo corredor. Bateu energicamente na porta que logo se abriu. Apareceu uma jovem de cabelos negros e ondulados, presos no alto da cabeça. Seu rosto era belo e os olhos eram claros. Assustada e com os olhos injetados, ela tentou fechar a porta, sendo impedida pelo detetive.

- Não dificulte as coisas para mim, como seu pai! Eu quero falar com você!

- Quem é você?! Eu não fiz nada! Não tenho nada para falar!!

- Sou da polícia e sei o que você fez!

A janela do quarto estava aberta. Carolina olhou para ela e volveu o corpo numa velocidade que não surpreendeu aquele que a procurava. Ele avançou sobre ela e a segurou pelos braços.

- Não tente fugir!

- Me solta! Me larga!

- Não dê mais desgosto a seu pai do que você já deu!

Carolina não resistiu à força com a qual se deparou. Parou de resistir. Caiu em prantos.

- Não, por favor, não...

- Calma, calma, Carolina... – disse D’Arco percebendo que o quarto recendia a cheiro de cebola.

Ele a ajudou a sentar-se na cama. A jovem mulher chorava muito.

- Eu não fiz nada, nada – disse meneando a cabeça.

- Fez sim... querendo ou não... você matou um homem.

Ela ergueu a cabeça e encarou o policial que a acusava.

- Eu não sei do que o senhor está falando!

- Sabe sim.

- Não, não sei, não tem como me acusar!

- Tenho e vou explicar... fique quieta e não tente fugir...

Carolina fitou-o nos olhos e encolheu-se na cadeira.

- Confirma que trabalha na casa de Heitor e Eva Zenóbio da Silva?

Ela assentiu.

- O filho do casal, Pedro, foi morto ontem à noite, com várias facadas nas costas... verificamos e a casa não apresenta indícios de arrombamento, logo Pedro foi morto por alguém que tinha relacionamento com a família, que tinha facilidade em penetrar na casa, que tinha fácil acesso às dependências internas da residência... quem o matou não tinha o propósito de roubar, visto que nenhum objeto ou dinheiro foi levado do quarto de Pedro ou da casa...

O detetive olhou para o lóbulo da orelha de Carolina.

- E não tenho dúvidas que foi você quem o matou e tenho como provar o que estou afirmando.

- Não, não é verdade, isso não é verdade...

- Então diga: onde perdeu o outro brinco de pérola que está usando?

Carolina engoliu em seco, no mesmo instante que empalideceu.

- Eu, eu...

- Sabe explicar porque o cadáver de Pedro cheira a cebola?... porque os lençóis da cama dele também têm cheiro de cebola?... porque suas roupas, que estão no armário do quarto de empregada na casa dos Zenóbio, também têm cheiro de cebola?

- Eu cozinho muito na casa dos meus patrões... faço muitas comidas com cebola... é isso...

- A faca que encontramos nas costas de Pedro pertence a um conjunto de talheres da casa... com ela você preparava a comida, cortava legumes, carne, cebolas... e pelo fato de usar cebola em abundância na confecção da comida, o odor penetrava nas tuas roupas... e você sabe porque Pedro gostava do cheiro de cebola, porque o cheiro lhe lembrava seu corpo, lembrava os abusos que cometia com você...

Carolina abaixou a cabeça e continuou a chorar.

- Precisava do emprego, para sustentar seu pai, um velho doente... era obrigada a fazer o que Pedro queria... e era abusava por ele... abusada na cama do filho dos patrões... você sofria muito, sentia-se humilhada... e queria vingar-se, vingar-se do homem que a humilhava, que se aproveitava da situação desvantajosa que você vive... porque sabia que você estava refém de uma situação... a faca serviu para sua vingança, para acabar com o sofrimento que não mais suportava...

Ela ergueu a cabeça e encarou o detetive que se mantinha de pé.

- Diga a verdade: matou Pedro Zenóbio da Silva porque o odiava, porque ele abusava sexualmente de você?

Lágrimas e mais lágrimas escorriam pelo rosto de Carolina. Os olhos marejados não escondiam seu ódio.

- Matei, matei sim, matei aquele cachorro, filho da p...!

Ela levantou e com o dedo em riste apontou para a parede, como se indicasse a pessoa de Pedro.

- Aquele desgraçado abusava de mim! Me humilhava, que me chamava de vagabunda!

Ofegante e nervosa, ela fechou os punhos e batê-los na região das coxas.

- E eu não sou vagabunda! Eu nunca fui! Sou moça direita, eu aceitei tudo porque precisava, porque não tenho mãe nem irmãos para me defender, apenas meu pai, e ele é um homem velho, doente, muito doente...

- Eu percebi – retrucou o detetive demonstrando empatia. – Mas porque não denunciou Pedro?

- Olha para mim, olha para essa casa onde moro, para meu pai... somos pobres e eu precisava do emprego, da miséria que eles me pagam...

Ela secava as lágrimas que continuavam a escorrer.

- E eu fiz porque o maldito não parava, eu pedia para parar, mas ele não parava... eu fiz para ele parar... para me vingar daquele filho da p...!

D’Arco ficou calado, observando-a por um instante.

- Seu pai sabe o que você fez?

Ele balançou a cabeça em negativa.

- Tem que explicar a ele tudo o que aconteceu...

- E depois? – indagou Carolina.

- Nós vamos para a delegacia, vamos conversar com o delegado... você vai explicar para ele o que aconteceu na casa dos Zenóbio na noite passada.

A dupla movimentou-se em direção à porta. Carolina estacou. D’Arco encarou sua fisionomia contraída. Ela uniu os punhos finos e ergueu-os em direção a ele.

- Não vai me algemar?

Ele fitou-a nos olhos.

- Acredito que não seja necessário... a sua natureza e o peso da culpa que carrega na consciência já são suficientes para impedi-la de fugir.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

CHEIRO DE CEBOLA (I)

A penumbra cobria-os de uma tonalidade acinzentada. Ele porejava sobre ela. Suas mãos apertavam, possuíam o corpo que se permitia ultrajar. Ele expressava o regozijo. Ela, uma lividez quase cadavérica. A jovem mulher não agia, não reagia. O premir pelo corpo rejeitado arremetia sua essência ao abandono físico, a ausência mental. O desmando despertava-lhe um único sentimento. Noites... várias noites...

O sol tenro do fim da manhã penetrava pelos vidros quadriculados da janela de madeira. O quarto se localizava no segundo pavimento da casa e estava revirado, como se um vendaval tivesse invadido a janela e escapado pela porta aberta. O corpo foi encontrado pelos pais que viajavam e chegaram pela manhã. A cama de casal, no quarto de um jovem solteiro de vinte e seis anos de idade, chamou-lhe a atenção. Aproximou-se, sem esbarrar no perito que fotografava a cena do crime. Outro coletava impressões digitais e mais outro levantava distâncias. Passou a verificar o cadáver seminu, de bruços sobre a cama. O homem assassinado morava com os pais. Tinha porte atlético atestado pelas medalhas penduradas numa das paredes do quarto. Usava apenas as calças do pijama e provavelmente foi morto à noite, atacado enquanto dormia. Embora a bagunça exagerada no ambiente denotasse a ocorrência de luta corporal, a posição do corpo e a faca de lâmina longa, enterrada no torso da vítima, causaram uma estranha sensação no íntimo do detetive. Havia aproximadamente quatorze perfurações não perfeitamente visíveis nas costas do jovem, indicando que o assassino o ferira não apenas para neutralizá-lo, mas que ele fora eliminado por vingança. O detetive caminhou pelo quarto. Uma flâmula do Atlético Mineiro, pendurada na parede, arrancou-lhe um sorriso. Seu olhar percorreu gavetas abertas, roupas reviradas, objetos caídos, tapete, paredes, cômoda, armário, janela e porta. Não encontrou drogas, remédios ou cigarros. Novamente a sensação de estranheza.

- Há quanto tempo ele foi morto? – indagou Jules D’Arco ao perito que coordenava os trabalhos de levantamento.

- Aproximadamente nove ou dez horas.

- Quer dizer que foi morto por volta de uma ou duas horas da madrugada?

- Acredito que sim, talvez um pouco antes.

- Indícios de arrombamento?

- Nada, nem aqui e nem lá embaixo – respondeu um dos peritos.

- Algum objeto furtado?

- Apesar da bagunça e pelo que verificamos, parece que nada foi roubado.

- Perguntaram aos pais?

- Eles verificaram e disseram que parece que nada desapareceu.

D’Arco estava próximo da porta do quarto. Retornou para junto do corpo, para examiná-lo mais uma vez. Junto à cama, agachou-se e analisou o rosto da vítima. Ele não lhe era estranho. Talvez o tivesse encontrado na “esquina dos esquisitos”, ou seja, no cruzamento da Rua Barros Cobra com Santa Catarina. Aquele cruzamento era assim chamado pelo detetive porque sempre que por ali passava se deparava com algum indivíduo de aparência incomum ou sinistra, vestido de cowboy, pizzaiolo, hippie, punk ou emo.

O senso de observação e o olfato fizeram D’Arco se aproximar do corpo estendido sobre os lençóis empapados de sangue. Ele percebeu um odor acentuado de cebola. Naquele instante, notou uma pequena pérola branca, caída atrás do criado-mudo. Levantou-se e perguntou:

- É impressão minha, mas perceberam cheiro de cebola no ar?

- Percebemos. O corpo e os lençóis também estão cheirando.

- Ok, obrigado... ah, vi uma pérola caída atrás do criado-mudo, recolham ela como prova.

Antes de sair do quarto, ele olhou atentamente para a faca cravada nas costas da vítima. Era uma faca comum, usada como utensílio de cozinha. Enquanto caminhava para o andar de baixo, sua mente articulava tudo aquilo que ele viu e “sentiu” na cena do crime.

Um jovem solteiro morto à noite, no próprio quarto, durante a ausência dos pais... uma faca de cozinha, como arma do crime, que foi deixada no corpo da vítima... a cena do crime revirada, indicando possível luta corporal travada entre a vítima e o assassino... nenhum objeto roubado... e um forte odor de cebola no recinto...

D’Arco desceu as escadas e foi para a cozinha. Passou a verificar gavetas e armários. Encontrou um conjunto de talheres cujos cabos eram iguais ao da faca usada no crime. Contou quantas unidades e constatou que faltava uma faca, certamente a usada pelo assassino.

A casa não foi arrombada e o assassino usou uma faca da própria cozinha para cometer o crime...

Ele percorreu o ambiente. Aproximou-se de uma das janelas que tinham vista para os fundos. Avistou um quarto, isolado da casa. Saiu pela porta da cozinha e caminhou até o cômodo. Girou a maçaneta da porta e entrou. Deu alguns passos e parou. Balançou a cabeça.

Cheiro de cebola... cheiro de cebola...

O odor era mais intenso do que no quarto onde o jovem foi morto. Olhou ao redor. O cômodo era pequeno e tinha apenas uma cama, armário, cadeira e uma mesa de madeira. Contíguo, existia um estreito banheiro. As paredes não tinham quadros ou estampas. D’Arco abriu o armário. Encontrou duas calças femininas, algumas blusas e vestidos. Todos com tecido desgastado e de baixa qualidade. Na parte de baixo, havia dois pares de sapatos velhos e um par de tênis deformado e de sola gasta. Não encontrou jóias ou acessórios femininos. Notou novamente o odor de cebola. Retirou um dos vestidos do armário e o aproximou do rosto. O mesmo odor. Fechou o armário e retornou para a casa.

D’Arco encontrou os pais da vítima na sala. A mãe chorava intensamente, abraçada ao pai.

- Senhor...? – indagou D’Arco.

- Heitor...

- Sei que o momento é difícil, mas preciso fazer algumas perguntas...

- O delegado já fez um monte de perguntas – murmurou a mãe, erguendo a cabeça e expondo os olhos marejados.

- Eu sei, eu sei, mas farei apenas mais algumas perguntas... e procurarei ser breve.

O casal assentiu.

- Seu filho tinha namorada?

- Pedro namorava várias garotas... ele não tinha namorada fixa.

- Tinha inimigos declarados ou alguém que, sabidamente, não gostasse dele?

- Não, não sabemos se ele tinha inimigos.

- Embora eu tenha visto medalhas na parede do quarto de Pedro e acredito que ele fosse um desportista...

- Ele praticava corrida de aventura... uma modalidade esportiva que demanda muita resistência...

- Eu conheço esse tipo de esporte.

- Pedro era um atleta...

- Mas, senhor Heitor, mesmo bons atletas podem consumir algum tipo de droga para aumentar sua performance... ainda mais se participam de provas que possuem exercício intensos e prolongados... ele consumia algum tipo de droga ou remédio?

- Não.

- Estava envolvido com pessoas viciadas?

- Não.

- Bebia? Fumava?

- Não... eu já disse que ele era um atleta e dos bons.

- Desculpe... por acaso Pedro se envolveu, nos últimos meses, em alguma briga?

- Não é do nosso conhecimento.

D’Arco coçou a nuca e olhou ao redor.

- A casa de vocês é grande, bonita e deve dar trabalho para limpar... vocês tem jardineiro, faxineira?

- Temos apenas uma empregada.

- Qual o nome dela?

- Carolina.

- Ela trabalha diariamente?

- Sim.

- É jovem, bonita?

- Tem dezoito anos de idade – disse a mãe. – Trabalha conosco há pouco mais de dois anos.

- Por que essas perguntas? – indagou a mãe de Pedro.

- Numa investigação policial precisamos investigar tudo que possa nos levar ao assassino... às vezes, um mero detalhe irrelevante para uma pessoa comum, nos é fundamental para descobrir o autor de um crime.

- Entendemos detetive, pode perguntar o que quiser – disse o pai.

- Quando eu olhava a casa pude ver um quartinho nos fundos... a empregada mora aqui?

- Não, ela somente usa o quarto para se trocar.

- Ela gosta de trabalhar para vocês?

- Parece que sim.

- É uma garota pobre, precisa do emprego?

- Sim, ela é muito pobre.

- Pedro costumava permanecer em casa, sozinho, com Carolina?

- Sim, algumas vezes viajávamos e ela vinha fazer a limpeza diária na nossa ausência e depois ia embora.

- Carolina falou alguma coisa a respeito de Pedro, alguma vez? Reclamou dele em algum sentido?

O pai de Pedro olhou para a mulher e ela respondeu, murmurando:

- Não, não lembro disso... mas eu a achava uma moça triste... talvez por sua família passar por dificuldades.

- Parece que ela era de confiança, estou certo?

- Sim, era de nossa inteira confiança.

- Por acaso tinha as chaves da casa?

- Não, embora fosse de confiança e como Pedro também permanecia em casa quando viajávamos, achamos que não havia necessidade de dar-lhe as chaves de casa, até por questão de segurança.

- Sabe onde ela mora?

- Rua Francisco Resende, 44, no bairro Country Club I.

- Certo... quando fui à cozinha percebi um cheiro... um cheiro acentuado de cebola...

Naquele instante, o pai que respondia às perguntas foi interrompido pela esposa.

- Carolina... ela fazia a comida da casa... fazia a comida com muita cebola... nós detestávamos, sempre pedimos que diminuísse a quantidade de cebola, mas Pedro adorava, ele adorava sentir o cheiro de cebola na cozinha, o gosto na comida... eu não aprovava esse jeito dela, mas aceitava por ver meu filho feliz...

D’Arco fez um instante de silêncio enquanto encarava o casal e disse, levantando-se:

- Acho que por enquanto é suficiente.

- Detetive... a polícia vai descobrir que matou meu filho? – perguntou a mãe.

- Acho que estou mais perto do assassino do que a senhora imagina.

- Não entendo... – disse ela.

- O senhor já sabe quem matou Pedro?! – indagou o pai apreensivo.

- Ainda preciso investigar algumas coisas... em breve terão notícias minhas, até logo.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

O BOLÃO DA COPA DO MUNDO

A tríade predileta do brasileiro – futebol, cerveja e mulher – tornou-se forçosa presença na apoteótica Copa do Mundo. Neste período de grandiosas alegrias e temerosas frustrações, a turma do Dagoberto abandonava suas famílias e reunia-se na casa do Onofre, o mais ladino e cafajeste do grupo de seis marmanjos que adoravam assistir os jogos do embate mundial.

A família de Dagoberto era a mulher Josineide e sua filha Suelen. A esposa era do lar, recatada, barrado do vestido no joelho, assídua frequentadora das missas dominicais e tinha clara aversão ao futebol. A filha era uma bela jovem curvilínea, de dezessete anos de idade, submissa ao poder matriarcal e sedenta por conhecer os prazeres da vida.

Este núcleo familiar desintegrava-se a cada quatro anos, quando chegavam os jogos da Copa do Mundo. Dagoberto era tomado por uma veemente inquietação, e anunciava sua evasão solitária para a casa do Onofre, na qual a televisão tinha várias polegadas, a cerveja era distribuída em abundância e não havia proibição alguma para a gritaria ou a discussão futebolística. Josineide a cada jogo recolhia-se à igreja, a rezar, ou à casa de uma amiga beata, a tricotar. Falar em futebol e bebida com ela, nem pensar. Os amigos perguntavam, curiosamente, a Dagoberto como o casal vivia em evidente harmonia e felicidade, em vista do contraste de personalidades e comportamentos que apresentavam. Sem resposta. Este inusitado contexto familiar desarticulou-se, ainda mais, a partir do momento que Suelen completou doze anos de idade. Nos períodos futebolísticos, a independente morena em desabrochar perturbador também fugia de casa e reunia-se com suas amigas na casa de uma delas. Ali era outra algazarra impelida por coca-cola e pipoca na hora dos jogos do Brasil.

Em todas as Copas do Mundo, o Onofre surgia com uma novidade em termos de entretenimento durante as disputas televisivas. Uma vez foi um bingo no qual o ganhador levava uma caixa de cervejas. Em outra oportunidade foi o sorteio de uma viagem com a família a uma das praias cariocas, com todas as despesas pagas pelos outros cinco amigos – eles moravam em São Paulo – e que acabava com uma feijoada no retorno. Numa outra foi o sorteio de uma cartela de ingressos para jogos no Morumbi durante um ano. As ideias surgiam; ocorria a votação; aprovado o entretenimento; a bola rolava em campo e a alegria entrava na casa do Onofre.

Na última peleja mundial surgiu a ideia de um bolão de apostas. Mas um bolão diferente. Quem ganhasse a aposta receberia como prêmio passar o jogo seguinte em companhia de tantas garotas de programa quantos fossem os gols acertados no bolão. No caso do empate, a vitória seria disputada no “palitinho”. Quem custeava o programa e o motel eram os outros cinco cafajestes. Toda a ação seria executada no maior sigilo e discrição. Dos seis parceiros, apenas quatro eram casados e não queriam desestruturar seus lares. A seleção que ganhasse a disputa trazia alegria ao grupo e premiava o ganhador do bolão. Durante os jogos, todos ficavam agitados e apreensivos pelo resultado final. Mais do bolão do que da disputa propriamente dita. Afinal, o ganhador passaria ardentes momentos de prazer ao lado de uma, duas ou até três garotas, conforme o resultado apresentado no placar eletrônico do estádio.

Dagoberto preparava-se para ir para casa do Onofre. Transcorridos metade dos jogos e ele ainda não fora contemplado nenhuma vez. Josineide era puritana. Na mesa e na cama. Na mesa, apenas comidas com pouca ou nenhuma gordura. Na cama, cedia ao papai-e-mamãe como única posição amorosa e, olhe lá, se o marido pensasse em voz alta numa variação qualquer, por mais simples que fosse. Dagoberto estava em atraso e o casamento passava pela fase do sal. Insosso, insosso, em quase todos os momentos. Ele queria um pouco de ação, uma apimentada no sexo e sabia que não podia esperar muita coisa de sua companheira matrimonial. Aproximava-se a hora de mais um jogo. Camisa da seleção canarinho no peito, difusão de alegria e bandeira nacional nas mãos. Era a Copa do bolão e até aquele momento quatro dos cafajestes foram contemplados com a sorte grande. Alguns mais de uma vez e Dagoberto continuava na seca. Os felizardos contavam vantagens da sacanagem que rolava no motel.

- A garota era peituda e fazia uma espanhola de enlouquecer, rapaz...

- A que eu fiquei tinha a bunda mais gostosa que eu já vi... pedi para fazer um gol na linha de fundo e ela gostou e pediu bis...

- Saí com duas, uma morena e uma loira, que gatas!... muito obrigado, muito obrigado, amigos...

- E eu, e eu? Saí com uma que jogava um bolão... adorava duas bolas...

As piadas e façanhas adocicavam o paladar de Dagoberto. Ele sempre fora fiel, mas sua tolerância chegava ao fim. Queria esquecer a falta de dinheiro e seus desdobramentos, aqueles que lhe traziam tantas dores de cabeça e dores no bolso. Queria esquecer o “impedimento” quando passava por ele um par de nádegas insinuantes. De um lado da sala, ele calçava o tênis com celeridade. Do outro, surgia a filha com uma blusa justa e uma minissaia que não escondia o estro que despontava no horizonte de sua juventude. Ele olhou surpreso para Suelen. Meneou a cabeça onde já se estabelecera a hegemonia dos grisalhos.

- Tô indo para o bolão na casa do Onofre – disse o pai em voz alta.

A filha o encarou e sorriu.

- Pai, eu também tô indo para o bolão... da casa da Vanessa – retrucou a filha num tom coquete, saindo rebolativa de casa.

O pai achou estranha a coincidência.

Vou para o bolão da sacanagem e minha filha, também vai para um bolão?... bobagem, são minhocas da minha cabeça... a Josineide mantém essa garota no laço, pensou ele.

Súbito, a mulher apareceu com um vestido cobrindo até o pescoço e a Bíblia presa ao peito.

- Que bolão é esse que a Suelen tá indo? – perguntou Dagoberto.

- Ora, eu sei lá!... você também não está indo para o tal bolão na casa do Onofre? Deixa a tua filha em paz, eu já orientei ela para ficar na casa da amiga e se manter recatada... já vou indo, até mais tarde.

- Até mais... – disse o marido a observando desaparecer pela porta da sala.

Minutos depois, ele gritava desesperadamente a cada lance executado na peleja.

- Vamos lá Brasil! Eu vou ganhar esse bolão, eu vou ganhar!

Ocorria um riso coletivo dos amigos em relação à apreensão e expectativa de Dagoberto. Ele estava nervoso, gritava aos quatro cantos, suplicando que a sorte o contemplasse. O cenho porejava. A camisa ensopava-se de suor. A garganta estava dolorida de tanto gritar. Se a cerveja estava quente, não mais importava. Apostou que o jogo do Brasil contra a França terminaria em 1X0 e o segundo tempo chegava ao fim e nada de gol. Os minutos passavam e o desespero de Dagoberto recrudescia. Os amigos achavam que ele teria um colapso, caso não se acalmasse. Menos de dois minutos para o término do jogo. Não mais se ouviam gritos da torcida brasileira. No estádio ou na casa do Onofre. Súbito, Ronaldinho Gaúcho chutou forte e a rede espichou para trás. Gol do Brasil. O sibilar do apito terminou a disputa. Todos se entreolharam. Apenas um dos cafajestes pulava entusiasmado. Dagoberto foi o vencedor. Buliçoso, correu e abraçou Onofre, que coordenava as apostas.

- Ganhei! Ganhei!Ganhei!

Dois dias depois estava o Dagoberto na sala de casa novamente calçando o tênis para ir para o bolão. Ele sorria à toa. A mulher passou pela sala e resmungou algumas palavras de penitência que ele não entendeu. A filha, mais célere e alegre do que a última vez, passou pelo pai e disse que estava indo para o bolão na casa da amiga. O pai estranhou novamente a coincidência.

Que bolão será esse, para ela estar tão alegre?!, pensou Dagoberto.

Seu tesão era tão grande que o arrastou vertiginosamente em direção ao motel. O quarto estava reservado pelo grupo. Era só entrar, tirar a roupa no banheiro e aguardar dois toques na porta. Esse era o combinado pelo grupo, para causar mais impacto na hora da transa com a garota de programa. Dagoberto entrou no quarto e parou diante da televisão que já estava ligada. Passava um filme pornô. Sua libido disparou. Ele foi para o banheiro. Ficou totalmente nu, aguardando as pancadas na porta. Sua excitação era tão intensa, que logo que tirou a cueca, sua língua de sogra virou um bastão de basebol. Como seria a garota? Baixa, morena e de bunda grande? Loira, esguia e peituda? Não importava como fosse, a profissional do sexo deveria levá-lo à loucura, como os amigos contavam. Ele estava há semanas, não, há meses sem fazer sexo, sem fazer um sexo verdadeiro, ardente, enlouquecedor. Dormia com uma geladeira, que nem tinha comida para lhe proporcionar algum prazer. A mulher conversava sobre o lar, vizinhos, trabalhos beneficentes, penitências e dormia. Ele queria sexo, lambe aqui, agarra ali e tudo mais. Olhou apreensivo para o relógio. O jogo já começara e a garota ainda não aparecera. E o taco mais duro que casca de coco. Ele não podia mais esperar, ia acabar tendo uma ejaculação precoce ali, se demorasse mais algum tempo. De repente, um ruído. Ele ficou imóvel. Alguém bateu na porta ou sua imaginação estava lhe pregando uma peça? Novamente uma pancada. Fraca, tênue. Sim, era ela, sua musa chegara e ele não mais podia esperar. Num movimento brusco, abriu a porta e se deparou com o corpo maravilhoso de uma mulher. Seus olhos se arregalaram. Ela era morena. Estava bronzeada pelo sol. A marquinha do biquíni se evidenciava. E estava de costas e de quatro. De quatro para ele. Na posição preferida do mais oprimido dos cafajestes.

- Vem, vem, faz teu gol... – murmurou a garota.

A voz era rouca e estranha. Mas o que importava a voz. Ele queria era boca fechada, ou melhor, aberta e frenética. Dagoberto avançou sobre a garota como um animal ensandecido. O taco em riste e a boca salivante de tanto desejo.

- Vem, vem, gostoso... – murmurou a garota.

No limiar da união das partes, ela virou o rosto. O tarado parou de repente. O que saiu de sua boca foi um enorme grito:

- NÃO!!!

Tão assustada, quanto ele, a garota pulou para frente, sentando-se na cama.

- SUELEN!!!

- PAPAI!!!

Pálido, Dagoberto colocou as mãos no peito no momento que virou os olhos. Seu corpo tombou para trás e ele caiu com força no chão. Para a filha foi menos doloroso. Ela desmaiou batendo a cabeça num grupo de almofadas que estavam sobre a cama redonda. Ali estavam ganhadores ou perdedores de um mesmo bolão. O bolão da Copa do Mundo.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

FELIZ ANIVERSÁRIO, GOSTOSO

Trabalhava num escritório de causas advocatícias. Magro, alto e um tanto desengonçado, escondia-se por trás de um par de lentes que o deixavam bem mais velho do que realmente era. Como conheceu a intimidade de Lucimara muito cedo, não teve escolha: casou-se precocemente, com apenas vinte e um anos de idade. A esposa era uma mulher prendada, de média estatura, quadris largos e coxas grossas. O corpo lhe agradava, mas ela era um tanto apática para a idade que tinha, demonstrando lentidão e desânimo em quase todas as situações, e esta maneira de ser, desagradava Fernando. Ele era um homem ativo, muito ativo. Dedicava-se ao aprimoramento profissional sempre que o tempo lhe permitia. Não se contentava apenas em trabalhar na burocracia de um escritório. Queria mais, queria crescer, tanto que durante a noite cursava a faculdade de Direito e não tardaria a concluí-la. Com a apresentação do diploma seria mais bem remunerado, e caso não lhe oferecessem salário digno aos anos que passara estudando à noite e deixando a mulher sozinha em casa, abandonaria o escritório. Procuraria outro emprego ou, quem sabe, montaria seu próprio escritório.

Aquele dia era especial. Logo cedo, foi recebido pela mulher com um abraço e um longo beijo, felicitando-o pela passagem do aniversário. Satisfeito, abraçou aquelas curvas adiposas e depois foi fazer a higiene pessoal. Barbeado e perfumado, vestiu a camisa branca de colarinho engomado e colocou a gravata nova que a patroa dera-lhe na noite anterior, como presente de aniversário, e nada mais, nada mais. Embarcou na van e foi trabalhar. A chegada ao escritório foi marcada por abraços, beijos e felicitações exultantes dos colegas de trabalho. O gerente e dono do escritório, depois que todos o deixaram sozinho em sua mesa, aproximou-se e parabenizou-o. Entregou-lhe uma pequena caixa de presente. Depois de abri-la, sorriu. Ela continha um relógio. O magricelo de óculos encarou o patrão e disse:

- Obrigado, Dr. Heitor, muito obrigado, realmente estava precisando de um relógio novo... e para dizer a verdade, o meu quebrou quando caí aqui na rua, na última enchente...

O patrão sorriu.

- Isso não ocorreu há um mês?

Fernando assentiu.

- Obrigado mais uma vez pelo relógio, e a propósito, o senhor não quer ir a comemoração do meu aniversário? O pessoal do escritório está organizando... vai ser hoje à noite, na churrascaria Laço do Peão... ela fica a uma quatro quadras daqui...

O gerente ajeitou os óculos.

- Agradeço o convite, mas eu tenho um compromisso inadiável... te desejo felicidades na comemoração.

- Obrigado.

O expediente terminou e todos foram para a comemoração. Fernando chegou acompanhado de dois colegas. Os demais funcionários do escritório já estavam sentados numa longa mesa, comendo e bebendo. O aniversariante se reuniu à turma e passou a comemorar. O grupo contava piadas, fatos pitorescos ocorridos no trabalho ou na vida alheia. Risadas e gargalhadas se evadiam da mesa. A alegria era veemente e percebida pelos poucos clientes que estavam no estabelecimento naquela noite. Fernando convidara a mulher para ir à churrascaria, mas Lucimara preferiu ficar em casa, aguardando-o chegar e comemorar seu aniversário na intimidade do lar.

Apesar do aniversariante estar envolvido pela alegria do momento, de soslaio, acabou por perceber que era observado atentamente por uma mulher atraente, que estava em outra mesa. Ela estava acompanhada por uma amiga. A dupla, bonita e bem dotada fisicamente, cochichava alguma coisa sobre ele ou sobre a comemoração. Enquanto conversava com os amigos, o olhar de Fernando recaía sobre a mulher e seus maravilhosos seios, premidos por uma blusa muito justa. Ele ficou fascinado com a observadora desconhecida. Embora sua mulher ainda não tivesse engravidado, engordara, e nem de perto se comparava com aquela beldade austríaca. Sempre pouco criativa e desanimada na cama, Lucimara não satisfazia o furor do marido, e ele queria mais, queira que ela fosse audaciosa, mais atuante. Teve pensamentos indecorosos em relação à desconhecida, mas pensou que não passariam de fantasias e grandes fantasias não se realizam. Não teria nenhuma chance naquela noite e nem em outra, pois apesar de fazer faculdade à noite, a mulher cerceava sua liberdade noturna e como nunca vira a beldade por ali, talvez nunca mais voltasse a vê-la no estabelecimento.

Beberam, beberam e comeram. Ocorreu a entrega de presentes e seguiu-se a chegada à mesa de um pequeno bolo com velas cintilantes, vindo da cozinha da churrascaria. Minutos depois, durante a comemoração, o aniversariante notou que um dos colegas de trabalho, chamado Diogo, levantou-se e foi ao banheiro. No percurso para o sanitário, ele parou na mesa da loira. Fernando pensou que o colega tentava uma conquista. Viu a loira concordar com um gesto de cabeça e o colega prosseguiu seu rumo. No instante seguinte, a beldade se levantou e se dirigiu para o banheiro feminino. Passaram-se alguns minutos e Diogo voltou para a mesa, seguido de longe pela loira. Sentou-se onde estava e ficou mais alegre do antes, rindo à toa. Fernando percebeu sua atitude, mas não deu maior importância, julgando que sua alegria decorria da satisfação que envolvia a todos naquele momento e da deglutição das carnes suculentas que eram servidas. A comemoração transcorreu normalmente e, aos poucos, os colegas foram se despedindo e indo embora. Finalmente, restou Diogo e mais dois colegas, sendo que um deles se aproximou do aniversariante e disse:

- Amigão, antes da saideira queremos que você vá tirar a água do joelho... procure nos sanitários e vai encontrar o teu presente.

- Presente? Que presente?

- O presente destes teus amigos que tanto te querem bem... vai, vai logo pegar o teu presente – disse Diogo sorrindo.

Fernando sorriu e levantou-se. Um pouco tonto, foi para o banheiro. Entrou no sanitário e notou que não havia ninguém por ali. Passou a caminhar, abrindo as portas das privadas e olhando para o interior delas. Nada. Porta após porta aberta e ele não encontrava absolutamente nada. Acreditou ser gozação dos amigos. Continuou a caminhar até que chegou à última porta, que estava fechada. Achou que a privada estivesse ocupada, mas mesmo assim, empurrou a porta, deparando-se com a loira desconhecida. Ela estava sentada sobre a tampa da privada e o encarava. Assustado e antes que pudesse falar alguma coisa, foi puxado com força pela gravata. O corpo esquálido foi encerrado no cubículo.

- Ei, você está no banheiro errado!

A loira sorriu maliciosamente e disse:

- Não importa... sou teu presente de aniversário...

- O quê?!

Antes que Fernando falasse mais alguma coisa ou fizesse algum movimento, a loira puxou a própria blusa decotada para baixo, expondo os seios cheios e eretos. Ele arregalou os olhos, deslumbrado.

- Gostou? – disse ela.

Mesmo um tanto atordoado, ele assentiu. Ainda muito ágil, ela abriu-lhe a braguilha e arriou suas calças. Envolveu-lhe a virilidade e passou a lhe proporcionar profundo deleite. As mãos de Fernando passaram a pressionar as paredes da privada, tentando sustentar o corpo que entrava em êxtase.

- Não, eu, eu não vou aguentar... não vou aguentar...

A loira proporcionava-lhe prazer e sorria, percebendo que sua ação fascinava o amante ocasional. Súbito, ele irrompeu em clímax de proporções planetárias e ela o segurou, pela cintura. Zonzo pelo prazer que o atordoou, encostou-se a uma das paredes e sorriu.

- Feliz aniversário, gostoso! – disse a loira, que se levantou e saiu, limpando o rosto.

Fernando sentou na tampa da privada e continuou sorrindo. Balançou a cabeça, imaginando que não poderia receber presente mais estranho em toda a sua vida. Estava satisfeito e vazio. Como faria quando chegasse em casa para comemorar com a patroa, sob os lençóis novos que ela comprara recentemente? Balançou a cabeça. Pouco importava, ela não era de muito fogo mesmo e nem perceberia que ele estava vazio, pensou. Levantou, fechou o zíper das calças e voltou para a mesa, para tomar a saideira com os amigos. Estava feliz, feliz que só.

sábado, 1 de maio de 2010

BREVE AUSÊNCIA

Ele não lembrava como conseguiu ir para a casa da avó materna, longe da figura tirânica do pai. Sua chegada foi marcada por sorrisos e manifestações de carinho da tia que tanto ao adorava. Desde pequeno era agarrado por Rosinha e sofria inúmeros afagos. Agora estava ali, passando alguns dias numa das casas da avó que era viúva e fingia gostar dele. Depois da calorosa recepção foram para a cozinha, onde uma mesa farta de frios, pães, sucos e doces os esperava. Apesar da falta constante de comida no barraco de pau-a-pique em morava, o garoto crescera, descaracterizando um pouco aquela imagem esquelética, de olhos que pareciam estar recolhidos nos fundos das órbitas. A voz tornou-se mais grave, pêlos surgiram-lhe pelo corpo e algo começou a acontecer, algo que o deixava tenso e satisfeito. Provou um pouco de cada alimento que estava sobre a mesa. Enquanto comia observava a tia que não parava de contar a avó os últimos acontecimentos ocorridos na vizinhança. Depois da refeição foi conduzido por Rosinha para o quarto que dormiria enquanto estivesse visitando aquela casa.

Maria das Rosas, embora fosse a filha mais jovem de uma linhagem de sete filhos, tinha trinta e dois anos de idade. Sorridente e extrovertida, permaneceu morando com os pais com a aparente intenção de ajudá-los nas necessidades habituais, mas na verdade ocultava sua aversão ao trabalho. Depois da morte do pai, continuou morando com a mãe que contava com mais de sessenta e cinco anos de idade, passando a administrar bens e receitas. Estava solteira, mantendo um informal relacionamento amoroso com um detetive.

O garoto foi deixado no quarto, que era separado do quarto da tia pela sala de estar. Largou a bolsa com as poucas roupas no chão e sentou-se na cama de solteiro. A mão esquálida acariciou a colcha limpa e perfumada. Ficou muito satisfeito com a sensação de maciez do tecido e com as cores que apresentava. Nunca dormira em outra cama que não aquele dublê de colchão sobre um velho estrado, que mais parecia um catre, um genuíno catre. Deitou-se e acomodou as costas doloridas no colchão confortável. Estava cansado pela viagem que exigiu três mudanças de coletivo, tal a lonjura da casa da avó. Cruzou as mãos por trás da cabeça e ficou olhando ao redor. O ambiente era mobiliado sem extravagâncias, mas com relativo conforto. Pela janela, coberta por uma cortina esvoaçante, entrava o vento e a luz do dia. Ele sorriu, pensando como seria bom passar uns tempos longe da pobreza, do pai dominador, da vida sem graça e sem aventuras gloriosas que vivia. Mais do que isso, como seria bom passar alguns dias junto com a aquela mulher pela qual nutria algo que não sabia explicar, algo proibido.

Ele passava as manhãs brincando na rua com os outros garotos de sua idade e, à tarde, refugiava-se no aconchego da casa da avó. Esta lhe fazia sucos de frutas, batidos no liquidificador, e bolos, que ele adorava. Aos poucos, as guloseimas foram-lhe tirando o apetite. Enquanto bebia e comia, assistia a filmes e desenhos, entretenimentos que lhe traziam muita satisfação, mas pouco permitidos na casa dos tios que moravam em residência próxima a sua, em vista que em sua casa não havia televisão. No período da noite, após o jantar, reunia-se com a avó e Rosinha na sala de tv, para assistir aos telejornais e novelas. Adorava aquele momento, porque pouco lhe importava o que estava sendo transmitido. Interessava-lhe observar, discretamente, a tia em shorts muito curtos e justos. Findo os informativos e entretenimentos noturnos, todos se recolhiam. Às vezes, Rosinha saía, alegando que ia visitar uma amiga, mas na verdade encontrava-se com o amante. No quarto que ficava no fundo do corredor, a avó não tardava a adormecer profundamente, despertando somente na manhã seguinte. A tia ia para o quarto e deixava a porta entreaberta, passando a assistir a filmes durante a madrugada. Ele se dirigia para o quarto e aguardava na penumbra, o passar das horas. Enquanto os ponteiros do relógio de parede giravam lentamente, ficava pensando nos momentos de prazer que passaria. Todas as noites, o garoto deixava a solidão do quarto e, sorrateiramente, caminhava até a porta do quarto de Rosinha. Oculto pela escuridão do corredor, permanecia observando-a na intimidade.

No interior do quarto, iluminado por um abajur, num momento inopinado, Rosinha levantava-se da cama. Despojava-se da blusa larga e do soutien, desvelando a ternura dos seios. Naquele instante, o garoto sentia-se estranho por ser dominado por um tremor por todo o corpo e a boca inundar-se em saliva. O short justo era retirado e o sexo permanecia coberto por uma calcinha, que parecia ser um tamanho maior do que o necessário. Ele sentia a bermuda velha avolumar-se e uma sensação o impelia a entrar no quarto. Ficava confuso, atordoado com aquele desejo proibido e tão estranho que o dominava. Os minutos passavam e ele observava atentamente cada movimento da tia. No meio da madrugada, ela se levantava e ia desligar a televisão. Naquele momento, o garoto se deleitava com a formosura da mulher que lhe despertava sensações maravilhosas e estranhas. Os seios eram viçosos; a cintura delgada espalhava-se em quadris largos; e a bunda era endurecida e arrebitada. Ele ficava inquieto com aquele instante de luxúria. Retornava depressa para o quarto, para não ser descoberto. Tentava conter-se, agarrando-se ao travesseiro que acomodava sua cabeça até a manhã do dia seguinte.

Durante o dia, em conversa com a avó e a tia, entre sorrisos e gargalhadas, Rosinha abraçava-o, encostando seu rosto ao busto. Enquanto ela afagava sua cabeça e dizia-lhe palavras de carinho, ele podia sentir o perfume e o calor dos seios com os quais se regozijava à noite.

Na tarde do dia seguinte, a mãe telefonou para o garoto. A avó atendeu e conversou um pouco com ela, para logo passar o fone para ele. A mãe disse estar saudosa e que ele devia voltar para casa, porque seu pai já se demonstrava impaciente com sua ausência. Ele alegou estar bem, feliz, que queria ficar por ali por mais tempo, mas a mãe insistiu que voltasse para casa, o quanto antes. Inconformado, o garoto apresentou motivos que ocultavam seu desejo de estar longe do déspota que vivia a repreendê-lo, a humilhá-lo. A mãe fingiu não entender e desligou. O garoto menosprezou o pedido da mãe.

A noite chegou e o ritual se repetiu. A avó foi dormir e passou a roncar. A tia recolheu-se e a porta do quarto ficou entreaberta. O garoto deitou-se e ficou aguardando o avançar das horas. A mente em ebulição. A cada giro completo do ponteiro maior do relógio, seu desejo aumentava. Queria vê-la ao natural. Queria deliciar-se com as curvas que inquietavam seu corpo. Deixou o quarto e caminhou para a posição que assumia na escuridão do corredor. Rosinha levantou-se e retirou a blusa e o soutien. Depois se livrou do short, voltando a deitar-se. O garoto foi dominado mais uma vez pelo tremor e pelo desejo irresistível. Abaixou a cabeça, apertando com as mãos aquilo que intumescia, tentando conter-se. Quando ergueu a cabeça, a porta foi aberta. Ele arregalou os olhos e engoliu em seco. Antes que tentasse fugir, foi bruscamente puxado para dentro. A porta fechou-se e foi trancada.

Assustado e sem conseguir dizer uma palavra, o garoto foi levado pela tia para a cama. Rosinha deitou-se e puxou sua cabeça contra os seios descobertos. O garoto enfiou o rosto imberbe entre os volumes e sentiu a maciez da pele azeitonada. Sem que ela nada dissesse, ele passou a sorvê-los com avidez. Os sons da televisão, que permaneceu ligada a baixo volume, misturavam-se aos sussurros de Rosinha. O corpo miúdo perdeu as roupas e envolveu-se ao corpo perfumado. Suas mãos inseguras acariciavam, apertavam as curvas que seus olhos tanto desejavam. Tomado por surpresas, entrou em êxtase, quando sentiu a tia envolver-lhe a virilidade e passar a sugá-lo. Tentou gritar, mas a cortesã tampou-lhe a boca no momento que as energias irromperam dentro do corpo esquelético. Exausto, prostrou-se ao lado dela. Carícias e sussurros obscenos despertaram novamente o garoto que recebeu a ordem de possuí-la. Os dois explodiram em prazer e depois ficaram abraçados, calados, introvertidos no vazio que surgiu dos corpos que se uniram. O ato luxurioso se repetiu, e novamente se repetiu. Minutos depois estavam exaustos, mas felizes. Súbito, com um sorriso nos lábios, Rosinha puxou-o pelo braço e o expulsou do quarto, fechando a porta. Com as roupas nas mãos, ele voltou para o seu quarto e dormiu pesadamente. O fato passou a se repetir todas as noites, como um vício.

O garoto adorava a rotina que sua vida tomara. Durante o dia, brincava com os garotos da rua. À noite, ocultamente brincava com a tia, descobrindo fantásticos prazeres até então desconhecidos por ele.

Numa manhã, depois de brincar muito com os colegas, voltou para casa da avó, para beber um pouco d’água. No instante que abriu o portão, vislumbrou na varanda da casa a figura do pai, conversando com a avó e a tia. Seu rosto contraiu-se e uma dor surgiu-lhe no peito, fazendo sumir a expressão de alegria que passara ter. Cabisbaixo, caminhou devagar até a varanda. Quando lá chegou, encarou o pai. Percebeu que a fisionomia carrancuda do déspota estava pior do que antes. Ele falava e balançava a cabeça em clara discordância. Quando viu o filho, manifestou desagrado. O garoto caminhou até ele e fitou-o nos olhos. Pediu a benção do pai e ele respondeu:

- Arrume suas coisas... vim buscar você.

O garoto olhou para a Rosinha, que não escondeu sua tristeza.

- Mas pai, eu estou bem, falei com a mamãe por telefone e...

- Vamos para casa... você já ficou tempo demais por aqui.

- Mas pai, eu estou gostando tanto de ficar aqui na casa da vovó...

- Sim, ele está gostando muito... – retrucou a avó, sendo logo interrompida pelo pai.

- Você já ficou por aqui além da conta. Tem que voltar para casa...

- Mas pai...

- Sua mãe está com saudades e, eu também... Estou com saudades de brigar com você... Vai arrumar suas coisas... vamos embora... agora.

Os olhos do garoto marejaram. Ele abaixou a cabeça e dirigiu-se para o quarto. Minutos depois, saía com a bolsa velha nas mãos. Despediu-se da avó e, quando abraçou a tia, caiu em prantos. Rosinha consolou-o. Em seguida, ele caminhou em direção ao portão da casa, escoltado pelo pai. Olhou para trás e, com os olhos úmidos, acenou para a tia que nunca mais veria. Alguns anos depois, Rosinha foi agredida violentamente pelo detetive com o qual mantinha relacionamento amoroso. Caiu na rua e bateu com a cabeça no meio-fio da calçada. Vítima de um forte traumatismo craniano, ela veio a falecer no hospital.

domingo, 18 de abril de 2010

TRISTE EPÍLOGO

A mãe voltara do cinema com uma tia. Era final de uma tarde de primavera e não havia brisas. Ele estava com medo. Não por que ficara em casa sozinho, mas porque o pai, homem frio e despótico, que sentia prazer em demonstrar sua força física com os filhos, acabara de chegar. O pai fumava nervosamente, quando lhe perguntou pela mãe. O garoto esquelético, de olhos encovados, respondeu temerosamente. Embora ausente, o pai xingou a esposa. O garoto sentiu um medrar aflitivo e encolheu-se, como se encolhia quando o pai, por motivo fútil, espancava-o. O pai suava. Uma transpiração que porejava o cenho. Tenso, foi para o quarto e trocou de roupa, retornando com uma camisa e uma bermuda. O garoto, enquanto o pai se mudava de roupa, foi para a porta do barraco onde moravam e ficou aguardando a chegada da mãe.

O barraco era de pau-a-pique. Não havia forro ou laje, apenas o telhado que, visto por dentro, era um misto de barro e fuligem vinda das bocas de fogo da cozinha. O piso era uma argamassa porosa, coberta por tinta avermelhada, que sua mãe encerava e lustrava com um pano enrolado numa vassoura. Havia um quarto, onde seus pais dormiam; uma sala pequena, que servia de dormitório para ele e o irmão mais velho; uma cozinha muito pequena, onde a mãe preparava o pouco que vinha para a mesa e de onde a gordura vaporizada se espalhava pelo barraco.

O garoto sentou-se na soleira da porta e ficou olhando para o abacateiro, que cresceu ao lado do barraco, criando uma grande sombra sobre ele. Estava aflito. Sentia as pernas tremeram dentro das calças curtas, pelo ruído causado pelo andar pesado do pai dentro de casa. Sentia-se fraco por saber que nada poderia fazer para mudar o que estava por acontecer. Sabia que, pela atitude agressiva e impaciente do pai, a situação resultaria em mais uma das brigas que tanto o atormentavam. O garoto queria paz, harmonia entre o pai e a mãe, mas o pai nunca assim o desejou, nem mesmo depois que ele cresceu e tornou-se um adulto. Gostava de correr, alucinadamente, tanto pelo quintal empoeirado, como pelas ruas sem asfaltamento, quando ia comprar alguma coisa por ordem do pai que o via apenas como um serviçal. Pensou em abandonar seu posto no fundo do terreno e correr para o portão de casa e aguardar a mãe. Tentaria, com o seu pequeno vocabulário, expressar-lhe o perigo que enfrentaria. Mas sabia que sua atitude de nada adiantaria. A tarde estava terminando e a demora da mãe em chegar do cinema aumentava a agressividade do pai. Ele temia pelo porvir.

A figura da mãe acompanhada pela tia surgiu no portão. Ela sorria, demonstrando um dos raros momentos de alegria que marcaram sua vida depois que casou com aquele sujeito à toa. O pai, desde jovem, fora avesso ao trabalho. A mãe veio caminhando devagar. Parecia que comentava cenas interessantes do filme que assistira. O garoto levantou e foi encontrá-la. Abraçou-a forte e ela ficou surpresa com sua atitude.

- Tudo bem filho?

Rosto erguido e olhar fixo nos olhos da mãe, ele nada respondeu, cingido às pernas que muito o conduziram até o posto médico mais próximo quando doente. A mãe e a tia seguiram para o fundo do terreno. Ele seguiu-as. A porta da cozinha estava aberta e elas entraram por ela. O garoto foi para junto da porta e ficou encostado na parede que a ladeava. Não tardou irromper uma forte discussão. Por perceber a aflição da mãe que se defendia das acusações infundadas do pai, o garoto entrou na sala. Pensava que sua presença poderia inibir a agressividade do pai. Estava enganado. O pai estava para agredir a mãe quando ele foi arrastado pela tia para fora, que o conduziu para uma pedra próxima de uma goiabeira afastada do barraco. O garoto tentava livrar-se das mãos da tia, que um dia o faria macho, mas não conseguiu vencer a força arrebatadora. Sentados e abraçados na pedra fria, a tia e ele passaram a ouvir a forte briga. Palavrões, gritos, atitudes agressivas soavam como estrondos no fundo dos ouvidos do garoto, que tentava fugir dos braços que o manietavam. Ele queria interceder em favor da mãe. E esta tentativa de socorro se repetiu por um tempo muito longo para sua mente em pânico. Enquanto chorava nos braços da tia, a mãe era acusada de leviandade, de traição, quando adúltero era o pai. De repente, ouviu, aterrorizado, a mãe gritar, suplicar para que o pai não fizesse aquilo. No instante seguinte, através da porta da cozinha, viu um facão na mão do pai e este decepando ao meio a sandália, de salto de cortiça, que a mãe usava quando chegou do cinema. Ele tentou socorrê-la, mas estava exausto e fraco para fazer qualquer coisa. Os olhos marejados viram o pai sair pela porta da cozinha e desaparecer no portão de casa. A tia o soltou e ele correu desesperadamente ao encontro da mãe. O que viu cravou-se no inconsciente, uma imagem impactante, pungente, que deixou uma mancha esbraseada, nódoa que nunca mais desapareceria. A mãe estava caída no chão da cozinha. O vestido de algodão estampado encontrava-se rasgado, despedaçado, desvelando um dos seios. Ela soluçava muito e a sandália dilacerada pelo facão estava diante do corpo dolorido. Não por apanhar, porque o marido não a agredia fisicamente, apenas a ameaçava, impondo-lhe tortura psicológica. Era uma guerra de nervos, de intensa tensão mental. O garoto se aproximou devagar. As lágrimas que escorriam da face contraída, o tremor das mãos que costuravam dias e noites, o choro lamentoso do coração que o gerou. Ele ajoelhou e abraçou a mãe. Ficou a chorar com ela. O terror novamente permeara seu lar, não, não poderia chamar de lar aquele barraco, aquela existência degradante. Desejava um desfecho diferente para sua vida cheia de violência e penúria. Desejava expurgar do íntimo todas aquelas imagens, todos aqueles momentos que mais pareciam cenas de um tétrico filme hollywoodiano.

sábado, 10 de abril de 2010

UM MEDO BREVE E SEUS ARREDORES

Ele suava. Uma transpiração fria, fugidia, que corria do alto do cenho para a barriga que se comprimia. A noite era de primavera, mas parecia de verão. Quente, sufocante, com poucas brisas que amenizam o calor que o incomodava, mas não o seu temor. Voltava para casa. A velha casa, carcomida pelos anos e pela desarmonia entre familiares. Ela estava logo ali, adiante, não tão longe do corpo esquelético que muitas vezes consumia apenas duas refeições diárias. Gostava de correr, alucinadamente, pelo quintal empoeirado em perseguição de alguma galinha, somente para vê-la fugir em desespero. Sentia-se forte, ágil, superior. Fazia-o esquecer a miséria em que vivia enredado. Gostava de ser criança. Ser criança para ele era ser inocente, criatura de coração puro, não enlameado pela corrupção dos adultos. Ser criança era não ter as responsabilidades que tanto ouvia os adultos reclamarem. Continuava a caminhar em direção à porta dos fundos, olhos remelentos pelo sono que o derrubara sob o abacateiro. Debandara para lá no fim da tarde, para gozar da sombra imensa. O cansaço inerente ao corpo fraco conseguiu abatê-lo, apesar de ele lutar para não dormir fora de sua cama, ou melhor, catre, aquilo onde estirava o corpo. Sentia medo do escuro, da lua. Um medo visceral, que ao precipitar-se na luz, extinguia-se em celeridade semelhante a um piscar de olhos. Olhos vívidos, não soturnos. Dormia num canto da sala, vigiado pela chama de uma vela. O déspota que o colocara no mundo não permitia que qualquer lâmpada permanecesse acesa depois que todos fossem dormir, afinal onde arrumaria mais dinheiro para pagar a conta de energia. O salário que recebia era mínimo, mínimo num país sempre em desenvolvimento, expressões que o garoto costumava ouvir. E o pai avesso ao trabalho, fazia “bicos” como pintor, mas mesmo assim faltava dinheiro. Ele continuava a caminhar em direção à porta dos fundos. Queria correr, mas sentia-se fraco, as pernas pesavam, não venciam o medo que as fazia tremer. A escuridão que surgira antes que ele acordasse, estava por todos os lados. E ele temia a escuridão. Causava-lhe um medrar aflitivo, que o fazia procurar o aconchego da mãe. Ele que não saía de casa à noite, para não se encontrar com as trevas e com a lua. Esta sim era “ser” que lhe causava forte temor. Quando a via no alto do firmamento enegrecido, cercada muitas vezes por misteriosas estrelas, sentinelas cintilantes, seu pequeno coração disparava e suas mãos transpiravam em abundância. Sentia o esfíncter contrair-se, sem o desejar. Temia ser esmagado por tão vigoroso astro, por gigante tão resplandecente. A lua era divina e, no entanto, ameaçadora. Atraía-o por beleza e obscuridade, mas despertava-lhe uma sensação agourenta, infausta. A porta dos fundos, da cozinha que sua mãe pouco cozinhava pela falta de alimentos, estava entreaberta, como a lhe oferecer uma pequena passagem que o livraria de todos os medos, ou do maior de todos. Tinha medo de cair no chão e ser engolido pela escuridão e depois ser esmagado pela lua. Era um medo breve, circundado por tantos outros. Guardava esse medo infantil, coisa de criança, que o acompanharia por toda a vida, sob outra forma, sob outro conteúdo. Ele saberia, muito mais tarde, que os medos de infância crescem conosco, acompanham-nos por toda a vida. Quem os transforma são nossas iras, ambições, injustiças, maledicências, cobiças, avarezas e egoísmos. Convivemos com o mal, com suas diversas formas e aparências, com a violência que lhe é inerente, para um dia deixarmos de perceber que nos tornamos aquilo que mais tememos.

quarta-feira, 17 de março de 2010

APENAS UMA FASE

Ansiedade. Ele vivia uma grande ansiedade. Esse grande mal-estar que assola a mente de qualquer ser humano. Levantou-se da cama e foi para a cozinha. Comer. Comendo era uma das formas que encontrava para saciar aquele desejo intenso que o perturbava. Haviam ficado uma vez sem fazer amor por vários dias e esse período fora o maior desde então. Em todas as outras oportunidades os períodos foram menores e isso não lhe consumia a tranquilidade. Entretanto, desta vez estava ficando fora de controle. Completariam vinte dias de abstinência e ele não suportava mais. Ela inicialmente alegou dores de cabeça; depois foram dores nas costas; depois uma diarréia intermitente, resultado da ingestão exagerada de salgadinhos; e, por último, o período menstrual que se alongara por quase dez dias.

Ele abriu a geladeira e retirou os ingredientes que necessitava. Alface, tomate, pepino, hambúrguer, maionese, mostarda, pão de forma e coca-cola. Queria estufar o estômago, talvez conseguisse diminuir a inquietude que o afligia. Sozinho, na friagem da apertada cozinha, passou a preparar três sanduíches, todos para ele. A mulher estava na cama, coberta por um edredom, somente de camiseta e calcinha, prostrada pelo mal-estar que alegava ser efeito do fim do período menstrual.

Enquanto suas mãos preparavam o lanche, a mente estava em alvoroço. A mulher de pouco mais de trinta anos de idade reclamava do corpo que tinha, possivelmente fosse este o motivo que arrefecia seu apetite sexual. Ele discordava. Ela reclamava do volume dos seios, alegando que estavam caídos, e que o bumbum estava cheio de celulite. Ele discordava. A mulher tinha um corpo muito desejável, pelas curvas que ele adorava acariciar e pela maciez que o excitava. Seu corpo exercia forte efeito sobre o desejo do marido, apesar dela não acreditar. Ele foi um homem ativo, esbelto, craque da pelada nos finais de semana, com uma apimentada pulsão sexual. Agora estava grisalho, um pouco mais gordo, mas sua pulsão parecia não arrefecer com o passar dos anos. Sempre que a observava sair do banho, a desfilar nua pelo quarto à procura de um creme ou uma calcinha, ele se intumescia. Quando casaram, faziam sexo cinco ou seis vezes por semana. Não foi a passagem, por duas vezes, pela maternidade que mudou o corpo da mulher e nem diminuiu a libido do marido. Ela perdeu os bebês. Mulher vaidosa conseguiu manter o corpo que tinha ainda antes de casar, após tantos anos, mas sentia-se insatisfeita com ele. Dizia gostar de sexo, algumas vezes, selvagem, embora o procurasse pouco para satisfazer seus desejos. E ele não entendia o porquê.

Eram as circunstâncias. A mulher era uma profissional exemplar no ambiente de trabalho: estilo superpreocupada com seus afazeres, ela trabalhava numa multinacional, na área de planejamentos e contratos. Exigia eficiência de seus subordinados e cobrava-se no mesmo patamar. Ela era admirada e... cobiçada pelos superiores. Quem seria o Adão que se deliciava com aquela Eva de saias justas e blusas que infundiam desejos? Numa oportunidade, comentara com ele que havia um pensamento no mercado de trabalho no sentido que as mulheres deviam apresentar melhores resultados que os homens, nas mesmas funções. Dizia-se injustiçada, como todas as mulheres com as quais comentava tal situação. Mas não era somente seu desempenho que era constantemente avaliado. A bela loira, de olhos verdes e simpático sorriso, tinha curvas desejadas pelo segmento masculino com o qual trabalhava. Surgiam insinuações pecaminosas, que ela fingia não entender, mantendo-se fiel ao homem que amava. Ele confiava nela, contudo, sentia ciúmes. Ocultava sua insatisfação com o exercício da profissão da mulher. Aceitava que ela trabalhasse fora de casa para atender necessidades que seu salário não tinha como suprir. E ela gostava de vestir-se elegantemente, de ser invejada pelas outras. Mas o trabalho da mulher trazia outra insatisfação. Em muitas oportunidades, quando chegava do trabalho, dizia-se exausta e com pouca disposição para o sexo, indo dormir logo após um breve bate-papo. Ele tentava conter-se, mas era inevitável esconder sua irritação.

Terminados os sanduíches, devorou-os num suspiro. Tentava recalcar a ansiedade que o afligia. Despejou a louça do lanche na pia da cozinha e voltou para cama. Ela dormia. O semblante contraído pela dor que sentia o comoveu. Ele entendia o estado que a mulher se encontrava, mas o desejo de possuí-la o inquietava. Vivia uma agonia há quatro longos dias. A mulher rolou na cama e parte do corpo ficou descoberta. Ela podia discordar, mas ele achava seu corpo atraente, sedutor. A calcinha se atrevia na divisão das nádegas e a imagem do bumbum excitou-o ainda mais. Ele queria invadir suas vergonhas, deleitar-se dentro dela, sentir a umidade que muito lhe aprazia. Ficou apreciando o corpo macio na penumbra do quarto mal iluminado. Tocou-lhe o cenho que parecia febril, mas que era apenas efeito da enxaqueca e das dores que ela reclamava. Abraçou-lhe o corpo aquecido. Passou a acariciar os cabelos desgrenhados e o rosto jovial. Ela balbuciava alguma coisa, de vez em quando, mas logo tornava a ficar quieta. Apesar de o desejo o afligir, ele tinha domínio de si. Lembrou-se dos infreqüentes, mas muito ardentes momentos na cama que ela lhe proporcionou tantas vezes. Eram casados há quase três décadas e ele sabia que ela o amava, profundamente. Pensou que aqueles momentos de recato sexual não se constituíam num ato deliberado ou desejo proposital. A lembrança de uma conversa com seu falecido pai levou-o a recordar que o casamento tem seus altos e baixos. Beijou-a nos lábios ressequidos e foi dormir.

quinta-feira, 4 de março de 2010

UMA SERRA LONGE DEMAIS

Meu olhar taciturno, de viés, encontrou os raios esmaecidos que invadiam a janela do quarto. Antes de levantar, lembrei-me da noite anterior. Eu voltara cedo para casa, depois de presenciar, parcialmente, a entrega dos trabalhos de minha disciplina aos assistentes em sala de aula. Naquele momento, sorri, regozijando-me com a expressão apavorada dos alunos que entregavam uma pesquisa solicitada no plano de matérias. Uma pesquisa tão simples de elaborar – para mim – que para eles não passava de um Everest. Abandonei a quentura de minha cama de casal que, duas ou três vezes, recebera um visitante masculino que me acalorou os desejos. Ainda com o pijama de lã, vesti o robe que dobrado adormecera na cadeira ao lado da cama. Depois de pronto o café, adicionei creme e fui apreciar a deliciosa mistura na varanda de minha casa em Tiradentes. A escolha do imóvel não foi por sua beleza ou conforto, mas pela localização. Ele ficava na periferia e confrontava-se com a serra adjacente. Sentei-me na cadeira de balanço e, como tantas outras vezes, fiquei a contemplar a elevação alcantilada. O escuro e gigantesco muro de pedra ascendia aos céus azulados da cidade, soberbo, imponente. Sorri e passei a beber, em pequenos goles, o afrodisíaco de meus devaneios. Minha atenção fixou-se na magnitude da serra. Ela ficava distante, mas em meu íntimo estava muito próxima.

A paisagem me lembrava a casa nas montanhas, que Stuart me levava sempre que eu estava no Canadá. Embora algumas vezes fosse verão, sempre havia vestígios da neve que caíra em períodos anteriormente frios. Sentávamos na varanda amadeirada e, como os poucos jovens que eu via na universidade, ficávamos abraçados, apreciando a vista. Entre um gole e outro do chocolate quente, carinhosamente preparado por ele, meu amante desferia um beijo adocicado em meus lábios já vincados pelo tempo. Embora eu já tivesse cinquenta e oito anos de idade não me furtava aos ardores do amor. Correspondia calorosamente ao afeto e descrevia minhas aventuras escolares na universidade brasileira em que trabalhava. Falava do medo, da insegurança e da inquietude de meus alunos durante as aulas. Em alguns momentos, Stuart ria alegremente ante o sufocamento e opressão desenvolvidos pela professora Cátia Madeira. Eu me vangloriava de minha austeridade e da atitude amedrontada dos alunos em relação a mim. Eram tantos Carlos, Marisas, Cristinas, Rodolfos, Pedros e Marias que tremiam sob minha orientação espartana que eu já perdera a conta. Aquela tirania com meus alunos me proporcionava um prazer mórbido, inusitado, que preenchia a severa solidão que me angustiava todos os dias. O desconhecimento, a ignorância em relação ao saber dos alunos me enervava. Se eles seguissem minhas orientações, estudassem como eu estudei, declinassem das festinhas e orgias que promoviam nas repúblicas, certamente obteriam o saber que eu tanto valorizo. Mas pertencem a uma geração ensandecida pelo prazer, pelo egocentrismo, pela ignorância desmedida. Por isso devo pressioná-los a aprender, a aprofundar seus conhecimentos, para que possam se tornar excelentes profissionais, como eu me tornei. Acredito que, possivelmente, minha capacidade cognitiva decorra da solidão que o destino me impôs. Não tive muitas oportunidades no amor e só restou-me abrigar meus anseios e sonhos na busca do saber. O mestrado e o doutorado, em oposição à graduação, foram aventuras ardorosas e gratificantes, que permitiram enraizar meus conhecimentos. A marcha implacável do tempo levou minha mãe há poucos anos atrás. A situação que se formou arrebatou à solidão cruel, fazendo-me dividir o lar com dois gatos e um papagaio. Os felinos ouvem minhas neuroses e a ave interage com meus devaneios. Minha mãe era a única pessoa que eu amava e que me restara na vida. Stuart, ou melhor, Steve Stuart era um engenheiro elétrico no Canadá, que eu conheci durante uma de minhas viagens aquele maravilhoso país. Depois de alguns jantares e várias taças de vinho, ele me levou a sua alcova e me fez mulher depois de tantos anos de virgindade. Tive que voltar ao Brasil, por obrigação profissional, mas sempre que posso vou ao encontro de meu amor distante e secreto.

Um pássaro interceptou meu olhar, despertando-me de meus devaneios, fato que me desagradou. Bebi um longo gole da mistura que já se arrefecia e voltei a olhar para a serra. Ela estava longe, como meu amor. Sua magnitude lembra a grandeza de Stuart, de seus afagos, de suas palavras tão calorosas que me alegravam não somente o ânimo, mas o coração frio e solitário. Quando estávamos no aconchego da cabana, comendo, sorrindo, brincando, nos amando, a vida apresentava o seu valor. A serra ali adiante, muda, bela, escura, portentosa, fazia-me lembrar dos momentos que ainda valiam a pena em minha vida tão amarga e tão povoada de alunos atemorizados e incultos. Um bafejo frio perpassou meu corpo amolecido e estriado. O calafrio eclodiu estas lágrimas que correm de meus olhos cansados. É o sangrar de meu coração apenas visto pelos gatos que, deitados diante de meus pés, observam meu alheamento.

A campainha da porta da frente soou estridente, despertando-me violentamente dos devaneios. Quem seria o insolente que interrompia meu descanso e meu prazer?! Ah, que cabeça a minha, certamente era um de meus assistentes que, inseguro, trazia-me o calhamaço de trabalhos que eu começaria a corrigir, definindo o destino de tantas pessoas. Quem passaria ao meu crivo tão severo? Quem deveria repetir a matéria no semestre seguinte? Quem seria arremessado ao paraíso da aprovação? Quem seria arrebatado ao penoso inferno da repetência? Eu aumentaria a minha galeria de inimigos ou apenas me tornaria, mais uma vez, numa lembrança dolorosa da matéria mais temida pelos alunos da universidade? Esse poder de definir destinos me trazia prazer, satisfação. Tornava-me uma deusa, solitária e despótica, empunhando o cetro da aprovação.

A campainha soou novamente. Eu deveria ser severa ou misericordiosa na correção? Austera ou condescendente? Ah! Deixarei meu estado de espírito decidir. Vou receber meu visitante com um belo sorriso, que tenho só para os homens e raramente para uma mulher. Afinal, um homem é um homem, e eles me fazem bem aos olhos, mesmo que olhem endurecidamente para uma mulher como eu, com essa idade e ausência de beleza, momentos depois que acordou, vestindo um robe de seda por cima desse velho pijama de lã.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

DIGNÍSSIMO ELEITO

Robaldo Luis de Meneses. O nome era bizarro, um misto em homenagem aos avôs Roberto Alves, pai de sua mãe, e Clodoaldo de Meneses, pai de seu pai. Embora o dia estivesse quente, ele ordenou que o almoço fosse feijoada, sua comida predileta. Em regozijo, continuava a comemorar – após a ausência de quatro anos no cenário político municipal – sua vitória quase unânime no último pleito eleitoral. Os concorrentes, ainda que tivessem maior integridade moral que ele, não gozavam de tamanha popularidade, conquistada na ação dissimulada de ajudar a classe pobre que o procurava nos momentos difíceis em sua modesta casa.

Depois de saborear tão suculenta refeição, eles tentavam dormir. O corpo suado e desabituado ao banho se enroscava na cama com duas jovens que tinham quase a metade de sua idade. Ele vestia uma camisa de colarinho, sem mangas, e bermuda. Elas cobriam as curvas com shorts minúsculos e mini-blusas que mal continham os seios em desabrocho. Ele rosnava, sonolento, buscando o aconchego de corpos tão viris. A cama, às vezes, rangia, suportando o peso da indecência que fervilhava naquela casa. Em verdade, eram três jovens que foram abandonadas pela família por se prostituírem, sendo a mais nova, recém-ingressa na maioridade. Todas viviam em concubinato com Robaldo. Indiferente ao divórcio e ao casal de filhos que gerou, ele enveredara por uma vida que oscilava entre a atividade política e a devassidão pessoal. Sua inclinação pela bebida e por mulheres muito mais jovens do que ele denotava evidente desequilíbrio e perversão, fato de que fora acusado pela oposição após o término do primeiro mandato na prefeitura. Mas nunca as ofensas e calúnias de natureza política lhe causaram algum abalo no estilo imoral e indigno de viver. Acreditava que ajudando os pobres, exercendo as obrigações triviais do cargo e mantendo-se, dentro do possível, longe de falcatruas e conchavos podia manter-se no exercício da política.

A terceira jovem abriu a porta do quarto em penumbras e disse:

- Robaldo, Robaldo, acorde! O “Seu” Felisberto está aí e quer falar contigo...

Ele resmungou alguma coisa e virou-se para o lado, expelindo gases intestinais enquanto apalpava o busto de uma das jovens. A atitude enojou a garota mais jovem. Quem o procurava era Felisberto Ferreira, um de seus assessores mais íntimos, parceiro fiel em falcatruas que ele já perpetrara em sua primeira passagem pela prefeitura. A garota se aproximou e sacudiu o amante, insistindo:

- Robaldo, Robaldo, acorde! Acorde! Ele quer falar contigo, disse que é urgente!

Um momento de silêncio e o dorminhoco respondeu, a voz em tom aparvalhado:

- O que ele quer?

- Não entendi muito bem, mas ele disse que é sobre a BioTrans.

BioTrans era uma das empresas de transporte coletivo credenciadas pela prefeitura.

O homem corpulento levantou-se num sobressalto.

- O quê?! O que você disse, menina?!

- “Seu” Felisberto disse que quer falar sobre a BioTrans.

Robaldo empurrou o corpo de uma das concubinas e sentou-se na beira da cama. Massageou os cabelos grisalhos da nuca e depois coçou a barba que sempre estava por fazer. Resmungou alguma coisa e calçou as sandálias de couro. Levantou com dificuldade e foi ao encontro de Felisberto, que o aguardava na varanda da casa. O corpo esquálido e coberto por um terno surrado, sem gravata, estava acomodado numa das cadeiras de vime. O assessor bebia um café requentado, servido momentos antes pela jovem que ficara encarregada de lavar a louça naquela tarde.

- Por que veio atrapalhar o meu sono? – perguntou Robaldo em desagrado.

O assessor se empertigou e, com um sorriso amarelado, repousou a xícara sobre a superfície de vidro da mesa.

- Estamos com problemas na prefeitura...

Robaldo expirou impaciente e disse:

- A prefeitura de São João do Vale sempre tem e sempre teve problemas, isso não é nenhuma novidade... e daí?

- Aquele nosso “colaborador” da BioTrans me procurou a pouco...

- E o que tem isso, homem?

- Ele disse que necessita de mais recursos... de mais recursos para seus negócios...

- O quê?! Aquele pilantra quer mais dinheiro?!

- Calma, senhor... ele disse que aquela contribuição não atendeu as necessidades, digamos, operacionais dos negócios.

O prefeito franziu o cenho e arrotou.

- Não me venha com esse palavreado de doutor, Felisberto, eu num entendo bem, fale em miúdos...

O assessor pigarreou e disse:

- Quero dizer que nosso colaborador quer mais dinheiro para ocultar nossas negociações e para... manter o silêncio... segundo ele, a diretoria da empresa está investigando possíveis desvios nas finanças...

- Que aquele pilantra mantenha a boca fechada! Para que a gente não tenha que fechar ela, entendeu?

O assessor abaixou a cabeça e, em seguida, levantou-a, fitando o patrão nos olhos.

- Não seria a melhor solução...

- Não me interessa qual seria a melhor solução, quero esse cara de boca fechada, entendeu?! Boca fechada!

- Tudo bem, tudo bem, mas o que eu faço?

Robaldo coçou os cabelos desgrenhados.

- Use a pasta preta, aquela que está no armário do quartinho lá na prefeitura... será que cinco mil acalma o sujeito?

- Para começar acredito que sim.

- Como para começar?! Esse patife está pensando que vou ser a aposentadoria dele enquanto eu estiver no mandato?! Acabo com a alegria dele!

- Calma, Robaldo, calma, eu acho que ele não vai ficar extorquindo dinheiro da gente... se continuar, mando aqueles rapazes “dar um medo” nele e logo ele fica calado, caladinho...

Naquele instante a campainha tocou. Robaldo olhou para frente e avistou três homens diante do portão de pedestres.

- Carina! – gritou Robaldo chamando a jovem que o acordara. – Carina! Vai ver quem está lá no portão!...

A garota passou correndo pela varanda. Seus quadris arrebitados atraíram o olhar sequioso do assessor.

- Quem deve ser?

- Que delícia – murmurou o assessor.

- O que você disse?

- Ahn? Nada, prefeito, nada... quando posso pegar o dinheiro?

- Agora mesmo... apanha a grana e entrega a ele no local de sempre, fora da cidade...

- Pode deixar.

A garota voltou correndo. Esbaforida, disse:

- É, é o delegado...

A natural tranquilidade do político evolou num piscar de olhos.

- Delegado?!

Robaldo contraiu as sobrancelhas.

- O que ele quer?

- Não sei... falou que quer falar contigo...

- M...! O que esse tira quer comigo?!

- Talvez nada demais – disse o assessor. – É bom recebê-lo.

- Mande ele entrar...

A garota dirigiu-se novamente para o portão. Pouco depois, retornou em companhia do delegado e dos policiais que o acompanhavam.

- Boa tarde prefeito.

- Boa tarde delegado – respondeu o prefeito em evidente desagrado. – O que você quer?

O delegado não respondeu. Retirou um envelope pardo do interior de uma pasta que carregava. Abriu o envelope e entregou um conjunto de fotografias ao prefeito.

- O que é isso?

- Olhe as fotografias, por favor – solicitou o delegado.

Robaldo passou a manuseá-las. Ele procurou ocultar, mas enquanto verificava cada uma delas o cenho porejava.

- O senhor reconhece essas imagens? – indagou o delegado.

O prefeito ficou calado. Verificou novamente as fotografias. Enquanto passava fotografia por fotografia, sua mente inculta retornou ao passado. A um passado obscuro, que ele mesmo desejava esquecer...

Durante um churrasco promovido semanas antes da eleição, numa fazenda afastada da cidade, Robaldo violentou uma jovem enquanto todos estavam bêbados. Ela fugiu pela mata e foi perseguida por ele, que a agarrou, terminando por estrangulá-la. O corpo macilento e ferido foi abandonado na mata. Um dos asseclas de Robaldo foi até o local e deslocou o cadáver para um ponto distante, na tentativa de eliminar evidências. Os restos mortais foram encontrados pela polícia dias depois da denúncia de seu desaparecimento.

- Por que está me mostrando estas fotos?

- Essa jovem desapareceu semanas atrás e o que restou de seu corpo foi encontrado recentemente nas proximidades de um riacho, fora da cidade...

- E o que eu tenho haver com isso?

- Na época em que ela desapareceu não tivemos indícios de seu paradeiro, nem mesmo a família sabia onde ela fora e como desapareceu... sabemos que o senhor realizou um churrasco numa fazenda, pouco antes de ser eleito, no qual convidou muitas pessoas, dentre elas, jovens meninas da cidade... essa garota era uma delas...

- Sim, convidei muitas pessoas, mas não lembro dessa garota... ela deve ter entrado escondida no churrasco...

- Acho que o prefeito devia forçar a memória... o senhor conheceu essa garota e muito bem...

- Como pode dizer isso? É mentira, eu não conheço essa garota... delegado, o que você está dizendo é calúnia.

- Calma Robaldo, calma – disse o assessor tentando acalmar o prefeito que era tomado por um rubor.

- O senhor violentou e matou essa garota durante o churrasco...

O prefeito se levantou e encarou, furioso, o delegado que se mantinha calmo.

- Como pode me acusar de um crime?! Ficou louco?! Daqui a pouco vai querer me prender! Esqueceu que eu tenho imunidade parlamentar?!

- Não, não esqueci – retrucou calmamente o delegado. – Posso afirmar baseado em evidências e eu tenho mais de uma.

O delegado retirou da pasta um envelope plástico que continha um cordão dourado. Naquele instante, Robaldo sentiu um calafrio percorrer-lhe as costas.

- Até o corpo da jovem ser encontrado não tínhamos nenhuma pista do paradeiro do assassino, mas este cordão foi encontrado em sua mão... segundo a perícia, ele foi arrancado pela vítima do pescoço do agressor enquanto ele a estrangulava... a garota manteve o medalhão preso em sua mão mesmo depois de morta...

O delegado abriu o pequeno medalhão retangular e o apresentou ao prefeito.

- O senhor reconhece essas fotografias? – indagou o delegado. – São seus filhos, correto?

Robaldo discretamente engoliu em seco.

- São seus filhos, prefeito, não são?

Robaldo fitou-o nos olhos.

- Certamente que são, pois eu procurei sua ex-esposa e ela afirmou que este cordão lhe foi dado de presente de aniversário há anos atrás... isto significa que ele é seu e que pelo fato de estar na mão da jovem encontrada não deixa dúvidas que foi o senhor que a matou.

- Isso é um absurdo, eu não matei essa garota, eu, eu perdi esse medalhão há muito tempo atrás...

- Creio que não, prefeito – disse o delegado retirando outro envelope da pasta. Ele retirou mais algumas fotografias do envelope e entregou-as ao prefeito.

- Essas fotografias foram tiradas durante o churrasco que o senhor promoveu na fazenda, antes da eleição, e na época que a garota desapareceu...

Robaldo passou a verificá-las. Suas mãos suavam e tremiam, apesar dele tentar mantê-las firmes.

- O senhor pode ver que numa delas está sem camisa, usando este cordão... e pelo que parece, no momento o senhor não usa o cordão... isto não nos deixa dúvidas que o senhor é o autor do crime.

- Tome suas fotos e vá embora, eu tenho imunidade parlamentar e...

- Um momento, prefeito, como o senhor cometeu o crime antes de sua diplomação como parlamentar, a lei determina que poderá ser processado sem autorização da Casa Legislativa...

- O que ele está falando Felisberto?

O assessor pigarreou antes de falar.

- Prefeito, infelizmente, o delegado quer dizer que ele pode agir sem autorização da Assembléia Legislativa na apuração crime.

- Fale claro, homem!

- O senhor está preso por assassinato, prefeito Robaldo Luis de Meneses – declarou o delegado. – Tenho aqui uma ordem de prisão expedida pelo senhor juiz da comarca de São João do Vale...

- Não! – bradou Robaldo arregalando os olhos injetados. – Não! Não!

Enfurecido, ele correu para dentro de casa. Surpresos com sua atitude, o delegado e os policiais passaram a perseguição. Antes de alcançá-lo, ouviram o grito de uma de suas concubinas. Em seguida, ecoou um estrondo vindo do quarto onde Robaldo dormia anteriormente. Eles correram, para logo se depararem com a cena dantesca de um homem esparramado sobre lençóis torcidos. O sangue espirrara de sua cabeça para a parede atrás da cabeceira da cama, criando uma grande mancha sanguinosa. O crânio se esfacelara e o sangue ainda jorrava, aos borbotões, sobre o lençol roto e sujo. Num canto, as jovens concubinas se abraçavam, aterrorizadas com o que presenciaram.

- Minha nossa! – exclamou um dos policiais. – O prefeito se matou!

O silêncio dominou o lugar, apenas rompido pelo soluçar das jovens em choque. O delegado se aproximou do corpo e, sem tocar em nada, verificou seu estado, para em seguida proferir:

- É... o fim dele não podia ser diferente... a morte é o salário do pecado – disse o delegado, meneando a cabeça. – Chamem a perícia e o carro do necrotério... o caso está resolvido.