Seja bem vindo

"A literatura insinua e coloca questões muito mais do que as responde ou resolve."

-------------------Milton Hatoum, escritor brasileiro



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quinta-feira, 1 de julho de 2010

UM HOMEM CHAMADO MACÁRIO

A pequena cidade, outrora denominada Arraial de Nossa Senhora do Pilar, diante do olhar de qualquer um, definia-se como um conjunto colorido de edificações mal conservadas. Dividida pelas águas canalizadas do Córrego do Lenheiro, revelava casas e prédios incrustados no talvegue e nas encostas alcantiladas que a circundavam. Num de seus extremos apresentava um bairro chamado de Águas Férreas. O designativo atípico da localidade remontava à descoberta e presença de grande quantidade de minério de ferro na região. Dos tempos que há muito se foram pouco restou no local por onde paulistas e forasteiros – estes apelidados de emboabas – acorreram. O lugar era formado por casas e barracos que se acotovelavam desordenadamente ante o pauperismo que os envolvia, no avançar da ingremidade das encostas da Serra do Lenheiro. Em verdade, com o advento da impunidade, traficantes infiltraram-se no local e a subserviência assinalou o cotidiano das famílias que ali residiam, transformando o bairro num lucrativo ponto de venda de drogas. As forças legais passaram a evitar o local em prudência às possíveis reações violentas dos integrantes do tráfico. Entretanto, quando o velado armistício estabelecido há um tempo não lembrado por todos era rompido, por qualquer razão, desencadeava-se um embate atroz e sangrento entre as partes.

Uma camada empolada e acinzentada de nuvens avançava, ruidosa e célere, pela cimeira da Serra do Lenheiro, destacável conjunto topográfico na cidade de relevo acidentado. Espantosos trovões ribombavam a expulsar todos os outros sons nas imediações. Milhares de folhas ressequidas eram arrastadas por intermitentes e poderosas rajadas de vento. A precocidade de um inesperado crepúsculo inquietava a todos. A massa úmida e plúmbea rastejava suas sombras por sobre a cidade e os corações de seus moradores. Desaparecia a paz no espírito daqueles que viviam no estreito vale. Emergia o temor que, turbulento, percorria suas artérias, devido à desarmonia entre as forças da natureza. O medo agravava-se ante o lampejar desordenado e sucessivo de relâmpagos em todas as direções, descrevendo circunvoluções pelo firmamento. Num bater macabro, janelas e portas chocavam-se contra suas molduras, num combate clamoroso das madeiras. Nas ruas e calçadas o caos estabeleceu-se, num vai-e-vem frenético de pessoas e veículos, em fuga da tempestade que se aproximava.

Em meio aquele presságio temporal surgiram em velocidade surpreendente viaturas policiais que selaram os acessos às Águas Férreas. O temor ascendeu. Dos veículos estacionados estrategicamente em barricadas, desembarcaram em formação quase tática, vários policiais. Como um enxame exasperado de abelhas, os semblantes embrutecidos passaram a avançar rapidamente pelas ruas e becos da boca-de-fumo. Fortemente armados, vasculhavam casas, barracos, cantos. Onde houvesse uma sombra, ali um cano metálico estava a farejar.

No efetivo que se desdobrava no terreno, uma dupla de homens lançava-se, impulsionada por sua determinação e coragem. Em seus corações, um propósito. Procuravam pelo perigoso traficante Edimar de Souza Brandão, vulgo Mazinho das Águas Férreas. Fugidio às ações repressivas da polícia carioca e oriundo do Comando Vermelho, facção criminosa do Rio de Janeiro, o traficante fora acolhido pelo chamado Comando das Águas Férreas ou CAF. Este era uma das organizações criminosas que controlavam o tráfico de drogas na cidade de São João del Rei. Mazinho em pouco tempo, devido a sua arrogância e impiedade, passou a ser temido pelos moradores da cidade e traficantes de grupos rivais. A malevolência de seus atos passou a comprometer a segurança e a ordem públicas, afetando alguns setores, como o turismo. A evolução dos fatos impingiu uma ação decisiva da polícia local.

O cerco aos soldados do tráfico e moradores deixou todos perplexos. Aquela planejada ação ao principal ponto de venda de drogas da cidade certamente redundaria em sangrenta batalha. Evidentemente uma ação incomum que indicava uma inexplicável falha na contenção – sistema de segurança do tráfico de drogas. Os olheiros – adultos ou crianças cooptadas pelo tráfico, que vigiavam os movimentos em torno da boca-de-fumo – haviam falhado em sua missão. Deixaram de alertar tempestivamente a presença policial. Como efeito, no avançar dos policiais, surgiram rostos velados pelo medo a correr em desvario na busca de proteção. Homens da lei corriam num louco ziguezaguear pelas ruas estreitas e becos úmidos. Eles avançavam sinuosamente para o interior da favela horizontal, numa demonstração orquestrada de um ataque coordenado de forças.

Repentino como um dos luzentes raios que esquivos disparavam pelo céu, um estampido sibilou longínquo, figadal. O estrepitoso som denunciou o disparo de um potente fuzil dotado de mira telescópica. Um corpo vergou, caindo ruidosamente junto à sarjeta de uma das vielas. Gritos. Homens acudiam o morto. Sangue aos borbotões. Um policial foi abatido, ferido no cenho. A morte ascendeu das profundezas da terra e obliterou ruidosamente a primeira vida. No instante seguinte, irrompeu numa prematuridade indesejável o portento ataque. Instituiu-se um intenso tiroteio e com ele veio a lume o pânico. Moradores subservientes ao tráfico passaram a fugir diante do terror convoluto. O espocar caótico de rajadas de projéteis flamejantes, de ambos os lados, passou a destruir tudo o que encontrava pelo caminho, edificando um rastro decadente. Ainda era dia, fim da tarde, contudo a escuridão espreitava nos becos catingosos do bairro. Uma exuberância de disparos era ouvida. Policiais impulsionados por densa adrenalina, porejando sob as vestes, atiravam ferozmente, avançando pelo labirinto mísero e úmido de moradias. Sombras. Gritos. A cada passo executado tresandava um odor fétido, mescla de esgoto e menarquia, que lhes invadia as narinas e as profundezas do espírito.

Mazinho, nervosamente, através do rádio comandava as ações dos soldados do tráfico, praguejando e determinando enérgica reação. Disparos. Inúmeros disparos estourando janelas, portas, penetrando paredes, no impacto fulminante de projéteis. Homens, mulheres e crianças corriam difusos, fustigados pelo pavor. Dor. Gritos. Manchas e respingos de sangue começavam a macular as Águas Férreas, cuja configuração mudou, tornando-se num campo de batalha. Corpos de traficantes e de homens da lei começaram a ornar ruas, becos e vielas, abatidos pelo fogo intenso. Das mãos de jovens delinqüentes, granadas adquiriram trajetória por cima de telhados e lajes. Explosões. Gritos. Disparos. Homens, mulheres e crianças, com semblantes atemorizados continuavam a fugir, desesperados, em busca de proteção. Muitos não chegavam à redenção almejada. O fogo das armas consumia-lhes a vida, num niilismo chocante. Barracos desabavam. Inocentes morriam. Ignominiosa destruição. Mulheres agarravam-se às suas crianças e choravam, diante do terror que se espalhava.

Fogo e fumaça. Dor e desgraça. Traficantes atiravam, resistiam, emboscavam. Policiais tombavam, sucumbindo à insidiosa ação dos criminosos. Sangue. Gritos. Dor. A morte materializava-se numa incongruência atroz nos corpos que feridos, estatelavam-se no chão, de onde o sangue purgava, manchando o solo por onde caíam. Cadáveres enodoados, esparramavam-se por todos os lados, transfigurando a natureza do bairro.

O cerco policial ao perigoso traficante fechava-se a cada instante. A polícia avançava, bravia. O poder da massa imperava. A tensão superlativa dominava Mazinho, que percebia que sua liberdade estava ameaçada, como nunca ocorrera anteriormente naquela pequena cidade onde se homiziara. Ele transpirava, gritava impropérios. Seus dedos apertavam continuamente o gatilho das pistolas que conduzia. Seus asseclas foram tombando ou passaram a fugir, devido à perda de homens e à falta de munição. Embora tivessem bom poder de fogo, não mais resistiam. A palavra de ordem era retirada. A boca-de-fumo fazia comércio, não guerra.

O traficante continuou a fugir para o interior das Águas Férreas, alçando alturas onde casas e barracos rareavam-se. Ele corria, protegido por um par de asseclas que tentavam retardar o avanço de dois policiais que estavam em seu encalço. Suando em abundância, seu corpo começava a manifestar cansaço. Ele pouco dormiu na noite anterior, na qual bebeu durante quase toda a madrugada, bailando seus sapatos em torno de uma mesa de bilhar. Desesperado, abria portas, pulava janelas, fugindo das garras da Justiça, que avançava intolerante. Num movimento imprudente, sua calça rasgou numa das pernas; em outro, perdeu o relógio, no romper da pulseira quando esta se prendeu numa maçaneta. Seu espírito estava em fúria, devido à iminência de perda da liberdade. Os dois asseclas mantinham contato com os policiais pelo fogo, quando um tiro transpassou a cabeça de um deles. Uma golfada sanguinolenta projetou-se e pedaços do encéfalo emergiram da parte posterior do crânio. O corpo caiu, inerte. Mazinho e o outro criminoso nem olharam para o companheiro morto. No tráfico de drogas não existe solidariedade, existe benefício. Um cadáver não serve a ninguém, nem à viúva, que passará a servir aos desmandos do tráfico, de uma forma ou de outra. Se jovem, servirá aos prazeres carnais do patrão e de seus capangas mais próximos. Se velha, será serviçal, cozinheira da boca, mensageira ou qualquer outra servidão menos relevante. Mazinho e o assecla continuaram a subir, fugindo, atirando, protegendo-se atrás de tudo que encontravam pelo caminho. Lá embaixo, o espocar dos projéteis começava a diminuir. A força dos soldados do tráfico tornou-se débil e eles espalharam-se, fugindo para outros bairros próximos, não mais reagindo ao fogo intenso das armas dos policiais.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

UM HOMEM CHAMADO MACÁRIO

UM CAFEZINHO E... EU PAGO A PROSA

O evento da Internet foi um enorme avanço para a comunicação e o relacionamento das pessoas e, em particular, para a literatura. Ela permitiu que as notícias, conhecimentos e informações chegassem mais rapidamente ao público; que se vencesse a atemorizante timidez; que se divulgasse aquilo que se pensa sem a necessidade de se publicar num periódico ou revista impressa; e ainda proporcionou uma série de outras possibilidades. Aproximou as pessoas, criou laços (virtuais) até então nunca existentes. Através dela foi permitido a escritores, poetas e todos aqueles que gostam de escrever, que “publicassem” suas obras, suas criações.

A partir de 01 de julho de 2010, passo a compartilhar uma de minhas obras inéditas com o grande público internauta. Afinal, todo escritor deseja que suas obras sejam lidas, apreciadas, devoradas por aqueles que gostam de uma boa leitura ou simplesmente por aquele leitor eventual que busca uma boa obra nas prateleiras de uma livraria. Um Homem Chamado Macário é um romance para o qual fiz uma longa pesquisa, visitei os lugares onde ele ocorre, coloquei os personagens em ação no contexto físico, para que a narrativa tivesse verossimilhança. Ele é intenso e acredito que emocionará o leitor por seu vigor, dinamismo, leveza. Sua densidade prenderá o leitor mais desavisado, que ficará ansioso pela postagem seguinte.

Gostaria que aqueles que lerem o romance Um Homem Chamado Macário, opinem, deixem sua real impressão da obra que foi feita para vocês, que tanto me honram com suas visitas ao meu blog.

Felicidades e boa leitura.

terça-feira, 22 de junho de 2010

POÇOS DE CALDAS E O DETETIVE JULES D’ARCO

Em visita de férias a uma das mais belas cidades do Brasil tive a grata oportunidade de conhecer algumas pessoas adoráveis, hospitaleiras e muito atenciosas. Trataram-me com dignidade, educação e distinta atenção, qualidades que depois, passeando e comprando nas lojas e supermercados da cidade, puder perceber que representam o cartão-postal da cidade de Poços de Caldas, município que possui a melhor qualidade de vida do Estado de Minas Gerais.

Passados alguns dias percorrendo pontos turísticos, conheci locais paradisíacos, como o Cristo Redentor, localizado no alto da Serra de São Domingos, monumento que impressiona por seu tamanho e beleza, lembrando o mesmo Cristo Redentor do Rio de Janeiro, como que a abençoar esta cidade maravilhosa e proporcionando belíssima visão de toda a região. Depois conheci o Complexo Cultural da Urca, que abriga o espaço cultural da cidade, com um teatro com capacidade para 500 pessoas e onde abriga anualmente, dentre outras atrações, a Feira Livro de Poços de Caldas; a bela cachoeira Véu das Noivas; o paradisíaco jardim Recanto Japonês, que é a réplica de um jardim da cidade de Kioto, construído na década de 70; e outros pontos e recantos muito bonitos e aprazíveis. Mas o que mais me impressionou foi a aparência das edificações, a limpeza e sinalização urbanas, a organização paisagística e planimétrica da cidade e a educação apresentada pelo povo que reside e trabalha naquela cidade. Não há como não gostar de cidade mineira tão bela, aconchegante e bem estruturada.

Finda as férias, retornei ao lar, meu doce lar, e não poderia deixar de ser, ao meu computador. Ideias surgiram devido ao que vi e ouvi em Poços de Caldas. As amizades permaneceram e mantiveram contato, através de e-mail e por visitas ao meu blog. Devido a pedidos dos amigos poços-caldenses e pelo carinho que passei a ter pela cidade, passarei a escrever periodicamente algum artigo relacionado a esse pedaço de terra mineiro, tão belo e agradável. E meu carinho e admiração pela cidade se tornaram tão grandes que começarei com a postagem de um conto, no qual faço a estréia de um personagem que há muito deseja se tornar público. Ele é obstinado em seus anseios e me procura todas as noites, enquanto estou a digitar um conto ou crônica, ou simplesmente a ler mais um romance, pedindo que eu o liberte da clausura de minha mente, que eu compartilhe suas façanhas e suas aventuras com o público em geral. E como eu o conheço muito bem, muito virá por aí.

Jules D’Arco é um homem inteligente, observador, criativo e de raciocínio rápido. Vocacionado para atividade policial, ele é perseverante em seus propósitos, sendo um incansável investigador. Age muitas vezes baseado em sua intuição e instinto, obtendo bons resultados em suas investigações. Hábil lutador, não guarda raiva, ressentimentos ou qualquer sentimento de revolta para com os outros. Por possuir capacidade de observação aguçada, vê o que os outros deixam escapar e...bom, vocês vão conhecê-lo. Ele é um dos meus presentes para Poços de Caldas e para toda a população que aí vive. Parabéns. E bom entretenimento e informação, lema deste veículo de lazer e cultura.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

O BOLÃO DA COPA DO MUNDO

A tríade predileta do brasileiro – futebol, cerveja e mulher – tornou-se forçosa presença na apoteótica Copa do Mundo. Neste período de grandiosas alegrias e temerosas frustrações, a turma do Dagoberto abandonava suas famílias e reunia-se na casa do Onofre, o mais ladino e cafajeste do grupo de seis marmanjos que adoravam assistir os jogos do embate mundial.

A família de Dagoberto era a mulher Josineide e sua filha Suelen. A esposa era do lar, recatada, barrado do vestido no joelho, assídua frequentadora das missas dominicais e tinha clara aversão ao futebol. A filha era uma bela jovem curvilínea, de dezessete anos de idade, submissa ao poder matriarcal e sedenta por conhecer os prazeres da vida.

Este núcleo familiar desintegrava-se a cada quatro anos, quando chegavam os jogos da Copa do Mundo. Dagoberto era tomado por uma veemente inquietação, e anunciava sua evasão solitária para a casa do Onofre, na qual a televisão tinha várias polegadas, a cerveja era distribuída em abundância e não havia proibição alguma para a gritaria ou a discussão futebolística. Josineide a cada jogo recolhia-se à igreja, a rezar, ou à casa de uma amiga beata, a tricotar. Falar em futebol e bebida com ela, nem pensar. Os amigos perguntavam, curiosamente, a Dagoberto como o casal vivia em evidente harmonia e felicidade, em vista do contraste de personalidades e comportamentos que apresentavam. Sem resposta. Este inusitado contexto familiar desarticulou-se, ainda mais, a partir do momento que Suelen completou doze anos de idade. Nos períodos futebolísticos, a independente morena em desabrochar perturbador também fugia de casa e reunia-se com suas amigas na casa de uma delas. Ali era outra algazarra impelida por coca-cola e pipoca na hora dos jogos do Brasil.

Em todas as Copas do Mundo, o Onofre surgia com uma novidade em termos de entretenimento durante as disputas televisivas. Uma vez foi um bingo no qual o ganhador levava uma caixa de cervejas. Em outra oportunidade foi o sorteio de uma viagem com a família a uma das praias cariocas, com todas as despesas pagas pelos outros cinco amigos – eles moravam em São Paulo – e que acabava com uma feijoada no retorno. Numa outra foi o sorteio de uma cartela de ingressos para jogos no Morumbi durante um ano. As ideias surgiam; ocorria a votação; aprovado o entretenimento; a bola rolava em campo e a alegria entrava na casa do Onofre.

Na última peleja mundial surgiu a ideia de um bolão de apostas. Mas um bolão diferente. Quem ganhasse a aposta receberia como prêmio passar o jogo seguinte em companhia de tantas garotas de programa quantos fossem os gols acertados no bolão. No caso do empate, a vitória seria disputada no “palitinho”. Quem custeava o programa e o motel eram os outros cinco cafajestes. Toda a ação seria executada no maior sigilo e discrição. Dos seis parceiros, apenas quatro eram casados e não queriam desestruturar seus lares. A seleção que ganhasse a disputa trazia alegria ao grupo e premiava o ganhador do bolão. Durante os jogos, todos ficavam agitados e apreensivos pelo resultado final. Mais do bolão do que da disputa propriamente dita. Afinal, o ganhador passaria ardentes momentos de prazer ao lado de uma, duas ou até três garotas, conforme o resultado apresentado no placar eletrônico do estádio.

Dagoberto preparava-se para ir para casa do Onofre. Transcorridos metade dos jogos e ele ainda não fora contemplado nenhuma vez. Josineide era puritana. Na mesa e na cama. Na mesa, apenas comidas com pouca ou nenhuma gordura. Na cama, cedia ao papai-e-mamãe como única posição amorosa e, olhe lá, se o marido pensasse em voz alta numa variação qualquer, por mais simples que fosse. Dagoberto estava em atraso e o casamento passava pela fase do sal. Insosso, insosso, em quase todos os momentos. Ele queria um pouco de ação, uma apimentada no sexo e sabia que não podia esperar muita coisa de sua companheira matrimonial. Aproximava-se a hora de mais um jogo. Camisa da seleção canarinho no peito, difusão de alegria e bandeira nacional nas mãos. Era a Copa do bolão e até aquele momento quatro dos cafajestes foram contemplados com a sorte grande. Alguns mais de uma vez e Dagoberto continuava na seca. Os felizardos contavam vantagens da sacanagem que rolava no motel.

- A garota era peituda e fazia uma espanhola de enlouquecer, rapaz...

- A que eu fiquei tinha a bunda mais gostosa que eu já vi... pedi para fazer um gol na linha de fundo e ela gostou e pediu bis...

- Saí com duas, uma morena e uma loira, que gatas!... muito obrigado, muito obrigado, amigos...

- E eu, e eu? Saí com uma que jogava um bolão... adorava duas bolas...

As piadas e façanhas adocicavam o paladar de Dagoberto. Ele sempre fora fiel, mas sua tolerância chegava ao fim. Queria esquecer a falta de dinheiro e seus desdobramentos, aqueles que lhe traziam tantas dores de cabeça e dores no bolso. Queria esquecer o “impedimento” quando passava por ele um par de nádegas insinuantes. De um lado da sala, ele calçava o tênis com celeridade. Do outro, surgia a filha com uma blusa justa e uma minissaia que não escondia o estro que despontava no horizonte de sua juventude. Ele olhou surpreso para Suelen. Meneou a cabeça onde já se estabelecera a hegemonia dos grisalhos.

- Tô indo para o bolão na casa do Onofre – disse o pai em voz alta.

A filha o encarou e sorriu.

- Pai, eu também tô indo para o bolão... da casa da Vanessa – retrucou a filha num tom coquete, saindo rebolativa de casa.

O pai achou estranha a coincidência.

Vou para o bolão da sacanagem e minha filha, também vai para um bolão?... bobagem, são minhocas da minha cabeça... a Josineide mantém essa garota no laço, pensou ele.

Súbito, a mulher apareceu com um vestido cobrindo até o pescoço e a Bíblia presa ao peito.

- Que bolão é esse que a Suelen tá indo? – perguntou Dagoberto.

- Ora, eu sei lá!... você também não está indo para o tal bolão na casa do Onofre? Deixa a tua filha em paz, eu já orientei ela para ficar na casa da amiga e se manter recatada... já vou indo, até mais tarde.

- Até mais... – disse o marido a observando desaparecer pela porta da sala.

Minutos depois, ele gritava desesperadamente a cada lance executado na peleja.

- Vamos lá Brasil! Eu vou ganhar esse bolão, eu vou ganhar!

Ocorria um riso coletivo dos amigos em relação à apreensão e expectativa de Dagoberto. Ele estava nervoso, gritava aos quatro cantos, suplicando que a sorte o contemplasse. O cenho porejava. A camisa ensopava-se de suor. A garganta estava dolorida de tanto gritar. Se a cerveja estava quente, não mais importava. Apostou que o jogo do Brasil contra a França terminaria em 1X0 e o segundo tempo chegava ao fim e nada de gol. Os minutos passavam e o desespero de Dagoberto recrudescia. Os amigos achavam que ele teria um colapso, caso não se acalmasse. Menos de dois minutos para o término do jogo. Não mais se ouviam gritos da torcida brasileira. No estádio ou na casa do Onofre. Súbito, Ronaldinho Gaúcho chutou forte e a rede espichou para trás. Gol do Brasil. O sibilar do apito terminou a disputa. Todos se entreolharam. Apenas um dos cafajestes pulava entusiasmado. Dagoberto foi o vencedor. Buliçoso, correu e abraçou Onofre, que coordenava as apostas.

- Ganhei! Ganhei!Ganhei!

Dois dias depois estava o Dagoberto na sala de casa novamente calçando o tênis para ir para o bolão. Ele sorria à toa. A mulher passou pela sala e resmungou algumas palavras de penitência que ele não entendeu. A filha, mais célere e alegre do que a última vez, passou pelo pai e disse que estava indo para o bolão na casa da amiga. O pai estranhou novamente a coincidência.

Que bolão será esse, para ela estar tão alegre?!, pensou Dagoberto.

Seu tesão era tão grande que o arrastou vertiginosamente em direção ao motel. O quarto estava reservado pelo grupo. Era só entrar, tirar a roupa no banheiro e aguardar dois toques na porta. Esse era o combinado pelo grupo, para causar mais impacto na hora da transa com a garota de programa. Dagoberto entrou no quarto e parou diante da televisão que já estava ligada. Passava um filme pornô. Sua libido disparou. Ele foi para o banheiro. Ficou totalmente nu, aguardando as pancadas na porta. Sua excitação era tão intensa, que logo que tirou a cueca, sua língua de sogra virou um bastão de basebol. Como seria a garota? Baixa, morena e de bunda grande? Loira, esguia e peituda? Não importava como fosse, a profissional do sexo deveria levá-lo à loucura, como os amigos contavam. Ele estava há semanas, não, há meses sem fazer sexo, sem fazer um sexo verdadeiro, ardente, enlouquecedor. Dormia com uma geladeira, que nem tinha comida para lhe proporcionar algum prazer. A mulher conversava sobre o lar, vizinhos, trabalhos beneficentes, penitências e dormia. Ele queria sexo, lambe aqui, agarra ali e tudo mais. Olhou apreensivo para o relógio. O jogo já começara e a garota ainda não aparecera. E o taco mais duro que casca de coco. Ele não podia mais esperar, ia acabar tendo uma ejaculação precoce ali, se demorasse mais algum tempo. De repente, um ruído. Ele ficou imóvel. Alguém bateu na porta ou sua imaginação estava lhe pregando uma peça? Novamente uma pancada. Fraca, tênue. Sim, era ela, sua musa chegara e ele não mais podia esperar. Num movimento brusco, abriu a porta e se deparou com o corpo maravilhoso de uma mulher. Seus olhos se arregalaram. Ela era morena. Estava bronzeada pelo sol. A marquinha do biquíni se evidenciava. E estava de costas e de quatro. De quatro para ele. Na posição preferida do mais oprimido dos cafajestes.

- Vem, vem, faz teu gol... – murmurou a garota.

A voz era rouca e estranha. Mas o que importava a voz. Ele queria era boca fechada, ou melhor, aberta e frenética. Dagoberto avançou sobre a garota como um animal ensandecido. O taco em riste e a boca salivante de tanto desejo.

- Vem, vem, gostoso... – murmurou a garota.

No limiar da união das partes, ela virou o rosto. O tarado parou de repente. O que saiu de sua boca foi um enorme grito:

- NÃO!!!

Tão assustada, quanto ele, a garota pulou para frente, sentando-se na cama.

- SUELEN!!!

- PAPAI!!!

Pálido, Dagoberto colocou as mãos no peito no momento que virou os olhos. Seu corpo tombou para trás e ele caiu com força no chão. Para a filha foi menos doloroso. Ela desmaiou batendo a cabeça num grupo de almofadas que estavam sobre a cama redonda. Ali estavam ganhadores ou perdedores de um mesmo bolão. O bolão da Copa do Mundo.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

OS QUATRO ARQUITETOS

Somos obra-prima de ser maravilhoso, superior, inigualável, cujo poder criador desconhece fronteiras. A nós foi dado relativo poder através da inteligência e não da força, sendo esta de natureza e grandeza insignificantes perante aquela. A inteligência é para o homem a ferramenta incomensurável que lhe permite controlar seu destino. Com ela, é capaz de quase tudo fazer, até mesmo promover sua autodestruição. Sem ela, retorna e perde-se nas trevas pré-históricas, aproximando-se dos seres irracionais, tornando-se semelhante em selvageria e estagnação, distinguindo-se deles apenas na aparência. E no momento que passamos a ter consciência do que realmente somos, de nossa unidade e importância neste mundo que nos foi dado com o ônus apenas de preservá-lo, entramos em sintonia com ele. E neste instante percebemos a ação grandiosa dos quatro elementos.

Água, com sua inexplicável fluidez e incomparável transparência, quando gota exerce inusitada atração em nosso olhar, em nosso íntimo. Afinal, segundo a ciência, ela compõe grande parte do que somos, daí a atração e irmandade que existe entre nós e este maravilhoso elemento. Limpa, purifica, higieniza, sacia a sede, alimenta até vazios estômagos. Quando torrente, quando em grande volume, é dotada de força incomparável, arrastando tudo que encontra em seu avançar devastador, arrasando, destruindo, vidas, edificações, veículos, cessando sua fúria incontida somente quando é diluída. Mas nem tudo é destruição para a água. Em seu correr, lapida margens, pedras, elevações, criando leitos, formas pétreas e gigantes montes que cobertos pelo tranquilizante verde, pela eterna neve, ou simplesmente nus, criam paisagens fantásticas e instigantes.

Terra, figura quantiosa de natureza complexa e vasta, que não só compõe o planeta que nos acolheu desde os primórdios, mas que em visão bíblica forneceu argamassa para modelar as formas que adquirimos. No tornear das águas revoltas e brutais, adquire curvas e formas que favorecem ou dificultam o viver do homem. Ora é colina, ora é vertente. Num instante é caverna, buraco, em outro é montanha, pico. Dela o homem retira tudo para criar, do alfinete que produz suas roupas ao foguete que lhe permite conhecer outros mundos. Usada em simples mistura química permite entrelaçar estruturas e erguer arranha-céus, bem como moradias pequenas e aconchegantes que abrigam seu corpo frágil. Das profundezas de seu ventre eviscera o alimento saboroso, o sustento que dá vida ao homem e aos animais.

Fogo, elemento de grande poder de transformação, cisalhamento, destruição. Com suas sinuosas lâminas douradas e flamejantes transforma os metais dando-lhes forma e cor segundo a vontade de quem os manipula. Quanto aos homens, o domínio de intenso elemento proporciona-lhes a tresloucada sensação de poder, de controle sobre todos os demais. Capaz de romper aquilo que anteriormente estava unido, faz medrar até o mais valente do seres. Em ação exterminadora, consegue dizimar tudo que se antepõe a sua propagação. Em sua presença as trevas fraquejam, reduzem-se e fogem, baldeando-se para recantos mais obscuros a fim de revigorar-se.

Ar, ar, ar que alimenta pulmões, que corre sob a pele, que faz viver, que gera energia nos corpos mais esquálidos. Seres dele necessitam, dele se ressentem em sua ausência. Sem ele e seus componentes, o fogo não sobrevive, é força natimorta. Sem ele não há vida, não há excitação para o movimento, não há oportunidade de vigência.

No fazer humano, não há como prescindir de elementos tão esplendorosos, que tornam a vida possível. Silentes arquitetos, que com suas peculiaridades e poderio, configuram o mundo que nos rodeia, que nos fascina, que nos emociona, que nos faz pequenos diante de tão nobre existência.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

FELIZ ANIVERSÁRIO, GOSTOSO

Trabalhava num escritório de causas advocatícias. Magro, alto e um tanto desengonçado, escondia-se por trás de um par de lentes que o deixavam bem mais velho do que realmente era. Como conheceu a intimidade de Lucimara muito cedo, não teve escolha: casou-se precocemente, com apenas vinte e um anos de idade. A esposa era uma mulher prendada, de média estatura, quadris largos e coxas grossas. O corpo lhe agradava, mas ela era um tanto apática para a idade que tinha, demonstrando lentidão e desânimo em quase todas as situações, e esta maneira de ser, desagradava Fernando. Ele era um homem ativo, muito ativo. Dedicava-se ao aprimoramento profissional sempre que o tempo lhe permitia. Não se contentava apenas em trabalhar na burocracia de um escritório. Queria mais, queria crescer, tanto que durante a noite cursava a faculdade de Direito e não tardaria a concluí-la. Com a apresentação do diploma seria mais bem remunerado, e caso não lhe oferecessem salário digno aos anos que passara estudando à noite e deixando a mulher sozinha em casa, abandonaria o escritório. Procuraria outro emprego ou, quem sabe, montaria seu próprio escritório.

Aquele dia era especial. Logo cedo, foi recebido pela mulher com um abraço e um longo beijo, felicitando-o pela passagem do aniversário. Satisfeito, abraçou aquelas curvas adiposas e depois foi fazer a higiene pessoal. Barbeado e perfumado, vestiu a camisa branca de colarinho engomado e colocou a gravata nova que a patroa dera-lhe na noite anterior, como presente de aniversário, e nada mais, nada mais. Embarcou na van e foi trabalhar. A chegada ao escritório foi marcada por abraços, beijos e felicitações exultantes dos colegas de trabalho. O gerente e dono do escritório, depois que todos o deixaram sozinho em sua mesa, aproximou-se e parabenizou-o. Entregou-lhe uma pequena caixa de presente. Depois de abri-la, sorriu. Ela continha um relógio. O magricelo de óculos encarou o patrão e disse:

- Obrigado, Dr. Heitor, muito obrigado, realmente estava precisando de um relógio novo... e para dizer a verdade, o meu quebrou quando caí aqui na rua, na última enchente...

O patrão sorriu.

- Isso não ocorreu há um mês?

Fernando assentiu.

- Obrigado mais uma vez pelo relógio, e a propósito, o senhor não quer ir a comemoração do meu aniversário? O pessoal do escritório está organizando... vai ser hoje à noite, na churrascaria Laço do Peão... ela fica a uma quatro quadras daqui...

O gerente ajeitou os óculos.

- Agradeço o convite, mas eu tenho um compromisso inadiável... te desejo felicidades na comemoração.

- Obrigado.

O expediente terminou e todos foram para a comemoração. Fernando chegou acompanhado de dois colegas. Os demais funcionários do escritório já estavam sentados numa longa mesa, comendo e bebendo. O aniversariante se reuniu à turma e passou a comemorar. O grupo contava piadas, fatos pitorescos ocorridos no trabalho ou na vida alheia. Risadas e gargalhadas se evadiam da mesa. A alegria era veemente e percebida pelos poucos clientes que estavam no estabelecimento naquela noite. Fernando convidara a mulher para ir à churrascaria, mas Lucimara preferiu ficar em casa, aguardando-o chegar e comemorar seu aniversário na intimidade do lar.

Apesar do aniversariante estar envolvido pela alegria do momento, de soslaio, acabou por perceber que era observado atentamente por uma mulher atraente, que estava em outra mesa. Ela estava acompanhada por uma amiga. A dupla, bonita e bem dotada fisicamente, cochichava alguma coisa sobre ele ou sobre a comemoração. Enquanto conversava com os amigos, o olhar de Fernando recaía sobre a mulher e seus maravilhosos seios, premidos por uma blusa muito justa. Ele ficou fascinado com a observadora desconhecida. Embora sua mulher ainda não tivesse engravidado, engordara, e nem de perto se comparava com aquela beldade austríaca. Sempre pouco criativa e desanimada na cama, Lucimara não satisfazia o furor do marido, e ele queria mais, queira que ela fosse audaciosa, mais atuante. Teve pensamentos indecorosos em relação à desconhecida, mas pensou que não passariam de fantasias e grandes fantasias não se realizam. Não teria nenhuma chance naquela noite e nem em outra, pois apesar de fazer faculdade à noite, a mulher cerceava sua liberdade noturna e como nunca vira a beldade por ali, talvez nunca mais voltasse a vê-la no estabelecimento.

Beberam, beberam e comeram. Ocorreu a entrega de presentes e seguiu-se a chegada à mesa de um pequeno bolo com velas cintilantes, vindo da cozinha da churrascaria. Minutos depois, durante a comemoração, o aniversariante notou que um dos colegas de trabalho, chamado Diogo, levantou-se e foi ao banheiro. No percurso para o sanitário, ele parou na mesa da loira. Fernando pensou que o colega tentava uma conquista. Viu a loira concordar com um gesto de cabeça e o colega prosseguiu seu rumo. No instante seguinte, a beldade se levantou e se dirigiu para o banheiro feminino. Passaram-se alguns minutos e Diogo voltou para a mesa, seguido de longe pela loira. Sentou-se onde estava e ficou mais alegre do antes, rindo à toa. Fernando percebeu sua atitude, mas não deu maior importância, julgando que sua alegria decorria da satisfação que envolvia a todos naquele momento e da deglutição das carnes suculentas que eram servidas. A comemoração transcorreu normalmente e, aos poucos, os colegas foram se despedindo e indo embora. Finalmente, restou Diogo e mais dois colegas, sendo que um deles se aproximou do aniversariante e disse:

- Amigão, antes da saideira queremos que você vá tirar a água do joelho... procure nos sanitários e vai encontrar o teu presente.

- Presente? Que presente?

- O presente destes teus amigos que tanto te querem bem... vai, vai logo pegar o teu presente – disse Diogo sorrindo.

Fernando sorriu e levantou-se. Um pouco tonto, foi para o banheiro. Entrou no sanitário e notou que não havia ninguém por ali. Passou a caminhar, abrindo as portas das privadas e olhando para o interior delas. Nada. Porta após porta aberta e ele não encontrava absolutamente nada. Acreditou ser gozação dos amigos. Continuou a caminhar até que chegou à última porta, que estava fechada. Achou que a privada estivesse ocupada, mas mesmo assim, empurrou a porta, deparando-se com a loira desconhecida. Ela estava sentada sobre a tampa da privada e o encarava. Assustado e antes que pudesse falar alguma coisa, foi puxado com força pela gravata. O corpo esquálido foi encerrado no cubículo.

- Ei, você está no banheiro errado!

A loira sorriu maliciosamente e disse:

- Não importa... sou teu presente de aniversário...

- O quê?!

Antes que Fernando falasse mais alguma coisa ou fizesse algum movimento, a loira puxou a própria blusa decotada para baixo, expondo os seios cheios e eretos. Ele arregalou os olhos, deslumbrado.

- Gostou? – disse ela.

Mesmo um tanto atordoado, ele assentiu. Ainda muito ágil, ela abriu-lhe a braguilha e arriou suas calças. Envolveu-lhe a virilidade e passou a lhe proporcionar profundo deleite. As mãos de Fernando passaram a pressionar as paredes da privada, tentando sustentar o corpo que entrava em êxtase.

- Não, eu, eu não vou aguentar... não vou aguentar...

A loira proporcionava-lhe prazer e sorria, percebendo que sua ação fascinava o amante ocasional. Súbito, ele irrompeu em clímax de proporções planetárias e ela o segurou, pela cintura. Zonzo pelo prazer que o atordoou, encostou-se a uma das paredes e sorriu.

- Feliz aniversário, gostoso! – disse a loira, que se levantou e saiu, limpando o rosto.

Fernando sentou na tampa da privada e continuou sorrindo. Balançou a cabeça, imaginando que não poderia receber presente mais estranho em toda a sua vida. Estava satisfeito e vazio. Como faria quando chegasse em casa para comemorar com a patroa, sob os lençóis novos que ela comprara recentemente? Balançou a cabeça. Pouco importava, ela não era de muito fogo mesmo e nem perceberia que ele estava vazio, pensou. Levantou, fechou o zíper das calças e voltou para a mesa, para tomar a saideira com os amigos. Estava feliz, feliz que só.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

BELO MONTE E A QUEIROZ GALVÃO

O coração tem razões que a própria razão desconhece. E o caixa financeiro de uma empreiteira também. Mas qual a diferença singular entre ambos? No coração, as razões são desconhecidas, obscuras, embora eloquentes. No caixa da empreiteira, há muitos corações nos quais fervilham interesses claros, evidentes. Lucros, prestígio, expansão do capital.

Quem é a Queiroz Galvão e qual a sua relação com a usina de Belo Monte?

A empreiteira Queiroz Galvão surgiu em 1953, fruto da iniciativa de quatro irmãos. O arcabouço financeiro inicial da empresa de núcleo familiar foi o capital gerado pela venda de uma picape Chevrolet, um Ford 1949 e um jipe 1948. Mas de boa vontade todas as empresas contam. A prova de fogo da pequena empresa logo foi a primeira obra, que se constituiu no sistema de abastecimento de água do município de Limoeiro, no interior pernambucano. E tudo foi coroado de sucesso. Depois investiram na construção de estradas e... novos méritos. Com a expansão da malha rodoviária nordestina veio o sucesso e ele levou-os a almejar voos mais altos. O grupo buscou oportunidades na região Sudeste, fato que resultou na transferência da sede da empresa para a cidade maravilhosa. A expansão das obras públicas na década de 70 fez a Queiroz Galvão crescer e aspirar novas áreas de atuação. Investiram, sem temor, nas perfurações petrolíferas, e não pararam por aí. Passaram a investir e atuar no mercado imobiliário, construção civil, engenharia ambiental, agropecuária e siderurgia. Isso retrata apenas a história da empreiteira que não difere muito de suas concorrentes.

Atualmente, embora a sede da empreiteira Queiroz Galvão seja no Recife, seu consultor João Queiroz Galvão permanece no Rio de Janeiro, de onde comanda o grupo. A Queiroz Galvão ou “QG”, lembrando “Quartel-General”, como alguns a chamam pela magnitude que atingiu, é a quarta maior empreiteira do país. O motivo? Com a receita de dois bilhões de reais que disparou em dígitos para os atuais RS 5,5 bilhões, tornou-se uma empreiteira de significativa grandeza. Com esta posição ombreou capacidade de trabalho e competência com suas concorrentes diretas que são a Odebrecht, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez. João Queiroz Galvão – um homem de cabelos grisalhos, fisionomia simpática e atitudes simples – preserva até hoje a discrição que caracteriza o grupo que criou juntamente com os irmãos. Evita os holofotes. Mantém uma relação distante e amistosa com a mídia. Pelo que demonstra, gosta do trabalho silente, dedicado, que apresenta resultados positivos.

Inúmeros brasileiros não conhecem pessoalmente a região Norte do Brasil. Quem a conhece define como uma imensa região, revestida por um dossel verdejante e exuberante, onde nada se avista até o longínquo horizonte, a não ser a contínua cobertura vegetal. A área de Belo Monte não poderia ser diferente. A região onde será construída a usina hidrelétrica fica no município de Vitória do Xingu, no Estado do Pará. Próxima a ela fica a cidade de Altamira, a mais desenvolvida e que conta com a maior população da região, em torno de 98 mil habitantes. Existem outros municípios menores cuja população gira em torno de vinte mil habitantes. O rio Xingu resvala suas águas por Belo Monte e por Altamira, bem como por alguns municípios e povoados, como a aldeia Paquiçamba.

A usina será a terceira maior do mundo e totalmente brasileira. A previsão é que produzirá 11 mil MW, gerando uma produção anual de 40 mil GWh, energia capaz de suprir 22 milhões de residências. Só para se ter uma ideia, Itaipu (binacional) gera 14 mil MW. Muitos de nós desconhecemos os fatores que implicam na construção de uma hidrelétrica, particularmente na região amazônica. São vários e não os abordarei na totalidade. Existe o impacto ambiental, a relação custo-benefício inerente ao empreendimento, a relação econômico-financeira, os interesses políticos, os danos sócio-econômicos, psicológicos e os prejuízos à biodiversidade. Além da construção da barragem, diques, eclusas, casas de força e canais, há a preparação e construção de uma vasta área a ser alagada, com a finalidade de gerar um reservatório (lago artificial) necessário à produção energética. A invasão das águas na área a ser alagada não somente cobrem a mata, mas elimina toda forma de vida ali existente. E aí ocorrem os prejuízos à biodiversidade. E o que é biodiversidade? O termo compreende a riqueza e a variedade do mundo animal, ou melhor, abrange todas as formas de vida (plantas, animais e microrganismos) e as inter-relações no ambiente em vivem, no qual a existência de uma espécie afeta diretamente muitas outras. A usina de Belo Monte deverá ter um reservatório de 516 Km² que ocupará os municípios de Altamira, Anapu, Brasil Novo e Senador José Porfírio. Esse reservatório irá eliminar da face da Terra uma quantidade imensa e inestimável de plantas e animais que jamais serão recuperados. Mas relevante estrago não se verificará somente no lado da barragem que abriga o reservatório. Do outro lado, onde ocorre a redução do volume das águas, acontece um impacto ambiental talvez muito maior e mais devastador. Por 100 quilômetros o rio Xingu passará a ter uma vazão mínima de águas, ou seja, uma redução significativa nas águas disponíveis. E nessa extensa região existem tribos indígenas, ribeirinhos e a floresta, com plantas, animais e microrganismos (a biodiversidade). Quando as águas diminuem, animais e plantas morrem, os peixes escasseiam e a navegabilidade do rio se reduz. Os indígenas passarão fome, porque na Amazônia o índio vive basicamente de caça e pesca. Faltará a caça, porque a floresta diminuirá. Faltará a pesca, porque o volume do rio diminuirá. Faltou alimento, o índio não tem a comodidade que nos é comum de ir ao supermercado, ele não vai à mercearia da esquina, porque na região amazônica não existem supermercados de fácil acesso ou mercearias na esquina, apenas nas localidades de vulto, que ficam distantes e ele depende da navegabilidade do rio para chegar até elas. Existe a mata, o céu, o rio, a solidão, o abandono. Os danos sócio-econômicos e psicológicos às tribos e ribeirinhos que lá vivem serão arrasadores. E as autoridades responsáveis pela construção da usina não sabem disso? A mídia divulgou que determinaram pesquisas, e não tomaram conhecimento do que pode acontecer? Desconhecem totalmente os prejuízos que o empreendimento poderá causar? O Ministério Público, antes do leilão, questionou o Ibama a respeito e seus técnicos não garantiram a viabilidade ambiental da usina de Belo Monte. E não foi apenas num parecer, mas em vários pareceres. E mesmo assim, num ano de eleições, as autoridades forçaram a realização do leilão. Vemos aí os interesses políticos agindo, de forma velada e sorrateira. Certamente alguém levará vantagem na realização desse empreendimento. Em relação a potência instalada, dados indicam que a produção energética média mal passará dos 4 mil MW, menos ainda quando o regime das águas do rio diminuem em alguns meses do ano, devido a redução significativa do índice pluviométrico, característica peculiar da região amazônica. Ora, pretende-se construir uma “ferrari” que frequentemente andará como um “carro popular”. É um contrassenso. E a coisa se agrava quando falamos no custo da obra. Está calculado que será de R$ 19 bilhões, não contando os enormes linhões que atravessarão a floresta (causando mais impacto ambiental) e que estarão muito longe dos centros consumidores. As empreiteiras calculam que ele não sairá por menos de R$ 30 bilhões. E aí temos um dilema: vale a pena alagar a selva amazônica, eliminando plantas, animais e... sacrificando os índios? Não existem fontes de energia alternativas em nosso país?

A energia hídrica é barata, mas nem tanto. O Brasil tem outras fontes de energia alternativas que são pouco valorizadas pelas autoridades, porque são fontes que não geram votos, atrapalham interesses políticos diversos e não permitem o desvio de recursos públicos. Temos como explorar a biomassa, que é de baixo custo, renovável, que permite reaproveitamento de resíduos. A energia eólica que é aquela gerada pelo vento, é uma energia limpa. Embora pouco utilizada, é uma fonte de energia que não gera poluição e não agride o meio ambiente. Através do movimento do vento, aerogeradores – que são grandes turbinas em forma de cata-vento colocadas em locais abertos e com boa quantidade de vento – produzem energia elétrica. Imagine o Brasil, com sua extensa orla marítima adornada por colônias de aerogeradores, de Nordeste a Sul? Seria um avanço na produção energética não poluente, um exemplo de preservação e conservação da Amazônia e da biodiversidade, além de ser uma atração turística mundial. Para se ter uma ideia da validade da energia eólica, na Alemanha, no ano passado foi produzida 25.800 MW de energia eólica; na Espanha, 19.150 MW; Em toda União Européia, 75 mil MW. Se abordarmos o assunto por outro viés e olharmos para o grande potencial fotovoltaico (energia solar) que podemos produzir no país, não há porque se optar pela destruição da biodiversidade, não há razão plausível para destruir, inundar, devastar a região de Belo Monte, causando um inestimável prejuízo ambiental à região, bem como dano sócio-econômico aos habitantes de localidade tão distante e prejuízo financeiro aos cofres públicos.

A regra básica do leilão da usina de Belo Monte era que o consórcio que oferecesse o maior deságio levaria o empreendimento. Como no turfe, havia o favorito, constituído pela construtora Andrade Gutierrez, pela Vale, por Furnas e pela Neoenergia (uma poderosa do setor energético controlada pelos fundos de pensão estatais). Ele ofereceu R$ 83 por megawatt/hora. Surpreendentemente, “por alguns corpos de vantagem” é que surge o “azarão”. Um grupo liderado pela discretíssima “QG”, ou melhor, empreiteira Queiroz Galvão. Ele vence o páreo e causa surpresa a todos. Mas voltemos ao período que antecede o certame do leilão.

Semanas antes do leilão havia apenas dois consórcios formados. Um com a Andrade Gutierrez e outro composto por Odebrecht e Camargo Corrêa. Apesar desta aparente articulação, o empreendimento na realidade seria repartido pelas empreiteiras acima e a “QG”. Às vésperas do leilão, Odebrecht e Camargo Corrêa abandonam o certame e deixam o governo refém de uma única proposta, comprometendo o leilão. O governo deseja que ocorra o leilão, custe o que custar, embora sua vontade levante suspeitas políticas num ano eleitoral. Mendes Júnior e Celendo, outras grandes construtoras se interessam pelo negócio e tentam um conluio com a Galvão Engenharia, uma dissidente da “QG”. Surge a possibilidade de concorrência no leilão e a “QG” sente-se ameaçada. O “azarão” entra no grupo organizado, às pressas, pelo governo. Talvez seja aí que começa o pivô da discórdia, pois a “QG” queria a garantia de realizar 80% das obras civis do empreendimento, proposta considerada abusiva pela Eletrobrás. Sua proposta é recusada e com a baixa tarifa (R$ 78 por megawatt/hora), João Queiroz Galvão decide abandonar o negócio. Por quê? Porque a construtora que nos últimos quatro anos dobrou de tamanho no Brasil abandonaria um negócio tão lucrativo? Um negócio que não só lhe proporcionaria prestígio e reconhecimento internacionais, mas lhe abriria as portas para novos e grandes empreendimentos? A resposta foi o risco. Caso a “QG” permanecesse no grupo deveria assumir 10% do risco de sua execução. Houve pressão dos altos escalões do governo e do próprio presidente Lula, que desdenhou da importância da presença da “QG” na construção da usina de Belo Monte. Essa postura presidencial fez João Queiroz Galvão repensar sua posição, levando-o a voltar ao negócio. E o grupo vencedor foi o seu, que deverá arcar com a responsabilidade de executar um empreendimento envolto de aspectos obscuros, cujos custos de construção e manutenção são altos e incertos. A “QG” fará um bom negócio no empreendimento de Belo Monte? Será que os holofotes que agora incidem sobre sua discreta imagem, trazendo-lhe prestígio e reconhecimento, não a levarão a um desfiladeiro letal, de sombras e prejuízos sucessivos? Sua imagem não se desgastará pelas intrigas que poderão advir devido aos diversos percalços e divergências já demonstrados no leilão e posteriormente na execução do empreendimento?

Que a Queiroz Galvão e seus inúmeros integrantes tenham a serenidade e perseverança necessárias à condução de empreendimento tão grandioso e repleto de fatores coadjuvantes adversos, não se deixando abater por intrigas, conchavos e outras ações obscuras e desleais. E que a nossa biodiversidade em Belo Monte seja o mínimo afetada. É o que desejam todos os brasileiros.